Espelho

Simples reflexo que encerra tudo o que a vida nos deu: olhos, cabelos, pele morena, lábios, braços, o que houver em cena.

Olhar para ele nos faz tentar descobrir o encoberto: forte, fraco, errado ou certo, medos, fome, guerra ou paz.

Meros momentos de encanto, brincar com o espelho nos traz: devaneios de garota, sonhos de criança, restos de muita esperança.

O tempo, esse velho inimigo, muda de cara o brinquedo, fazendo da fantasia, foco de muito segredo.

Olho de novo pra ele, vejo coisas que não via. Como pode um espelho mostrar medo e alegria?

Quem olha é que põe no brinquedo a força que quer ou que sente. Podem-se ver simplesmente rostos, gestos, corpos, gente.

 

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Lago

Lago espelho calmo

Fina pedra rola

Causa grande espanto

Margem branca assola

 

Fica marca doce

Monta guarda breve

Como alma fosse

Quase sempre escreve

 

Muda a cor do ramo

Lua que consola

Outra vez, de novo,

Pensamento isola

 

(sobre o momento de escrever)

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Crepúsculo

Ao entardecer, todas as luzes são frias, se os olhos semicerrados se mantiverem assim. Mas guardam ainda, de fato, o calor da cara amarela pregada no céu, sem contorções nem arrependimentos visíveis. Soltam-se as cargas extras incômodas, as falsas esperanças sem razão, as faces em desalinho pelo tempo que não se deseja perder, não mais. Elevam-se as exigências com a qualidade da vida que segue, mesmo ao crepúsculo, recheada de sonhos brandos e puros, muitos e verdadeiros. As frestas de luz entre nuvens, fugazes, intensas, reafirmam o amor à arte de bem-viver-bem. Alegram-se os olhos, a boca e a face toda, certos da influência positiva e permanente que causam e provocam. Sorrir é parte integrante do bom que se teve, do ótimo agora, do perfeito que, se os anos prometem, certa e positivamente ainda virá. Vida!

 

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Chove-me

Da janela ao lado contemplo o melhor da cidade. A distância imensurável, ao menos daqui, as árvores traiçoeiras nesta época do ano, as nuvens carregadas da água imprescindível, os prédios taciturnos, o movimento da Rebouças, incansável! Os sons se misturam e criam a música infernal de ventania, trovoadas, portas que se chocam contra os caixilhos, motores desregulados e sirenes ininterruptas.

Chove?

Choverá, talvez, e o ar pesado se quebrará em micropartículas invisíveis, explodindo nas faces dos passantes, nos telhados aquecidos, no asfalto detonado, nos gritos reprimidos de medo, de fome e de solidão. A opressão que antecede a precipitação iminente é a mesma de sempre e todos aceleram o passo, a mente, o carro, a vida. Poucos segundos resumem o tempo desperdiçado pelos cantos da cidade, e o cansaço toma conta do pedaço mais calmo do dia.

Sento!

Chove-me na alma clara de acordar o dia. Chovem-me dos olhos lágrimas que eu não queria. Chove na cidade e sinto que eu não choveria, fosse dos olhos água fonte de alegria. Chovem sonhos em meio à calmaria, chove o abraço forte como bem se via. Chove a palavra doce, chove a alegria, chove a vida que segue, mesmo à revelia.

Paro!

Logo à penumbra segue a forte luz do dia, nuvens de seguir a tempo outra calmaria. Frestas dessa luz devolvem real fantasia, Vida de se ter mais paz e muito mais valia.

(A chuva repentina e a falta que meu pai me faz)

 

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O muito e o pouco

Há pouco a dizer de tanto!

Tanto trabalho infindo, tanta ilusão ainda, tanto barulho abaixo, tanto suor e abraço, tanta saída, tanta gente esquecida, tanta paixão, tanta emoção, tanta gente no chão!

Há muito a dizer de pouco!

Pouca casa e muita gente, pouca história e muita semente, pouca vontade e tanto batente, pouca palavra e tanto na mente!

Pouco e muito em desalinho faz dos homens, tolos; de intenções, dolos; de todos, carcaça sem miolo.

Pondere o equilíbrio, explore o sentido, deixe tudo escolhido, siga a razão, de repente!

Volte-se ao fraco que sente, olhe o irmão, veja a questão, muito há que aprender, muito pouco a temer!

Deixe a alma no vento, dê corda ao pensamento! Creia no simples, no certo, no crível!

Creia no seu elemento!

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Sons de Sampa

O som alucinado da cidade me enfeitiça. Escrevo em meio a tudo o que ecoa, refletindo o desespero da cidade em alerta. Sampa!

Resume-se o dia em sons de arrepiar e até o portão que se fecha ao longe grita, como alma sedenta de silêncio.

Foge-se do impossível, evita-se o intolerável, rompe-se a fronteira do entendimento e joelhos se dobram em preces anormais, em momentos surreais.

Escrevem-se folhetos que são jogados em sarjetas, incessantemente. Distribuem-se avisos que rolam em enxurradas, beiram estradas e são conduzidos para o mesmo velho, desgastado e estupefato rio. Pobre! Pensamentos de pesar são ouvidos como pedidos de socorro, por seres impotentes e omissos. Recados são mandados, enquanto petições encabeçam demandas. Amontoam-se prescrições, bilhetes e desejos sem respostas. Sabidamente, a palavra é vencida e as águas se atolam em meio ao que resta da cidade enorme que engole gente e igualmente grita. Sampa!

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Vida

Às vezes, sem esforço algum, por uma fração de segundo, fica evidente para nós de onde viemos, que rumo tomamos ou porque seguimos. Foi o que aconteceu comigo há alguns dias: ao receber uma bela mensagem por email, identifiquei imediatamente os alicerces do meu próprio modo de sentir, pensar e expor as ideias. O texto abaixo é uma reflexão sobre o mais comum dos temas, preocupação do ser humano desde sempre, ou seja, a própria Vida, tema este tratado pelo autor com a mais natural profundidade literária, marcada por personificações em letras maiúsculas, denotando o respeito pela vida, pelo texto e pela criação, em todos os sentidos possíveis, e deixando espaço para a reflexão do leitor, que pode ou não concordar com o conteúdo escrito no ano de 1998, completando mentalmente as lacunas deixadas em reticências.

Papai, obrigada pela contribuição. Abaixo, segue o seu texto:

VIDA (por Edemar Paulo Gonçalves)

Cavalgar nas nuvens do Pensamento deixando a mente solta nos desvãos do Tempo.

Descansar no banco da Saudade: reviver os bons momentos, as pessoas amadas – flores no caminho da vida.

O Passado gravado na pedra da Eternidade, imutável, esmaecendo-se no pó do esquecimento. Baú de esperanças perdidas, sonhos desfeitos, lutas inglórias entre pequenas alegrias. Atos feitos, atos falhos.

Conversar com o Presente, de homem para homem, plantando o Futuro.

Futuro adubado com novas esperanças, novos sonhos, visões de duras refregas, visões de novos sorrisos.

O corpo se abate, a alma respira novos ares. O tropeço é o começo de um novo levantar.

A Vida continua com seu insondável Amanhã.

Amanhã…

Quando e onde será…

Outros afazeres?!…

Outras plagas?!…

Outros mundos?…

Quem poderá dizer se, na verdade, a vida não é somente o átimo de tempo em que estamos.

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