Arquivo do mês: maio 2011

Balas de coco

Passaram-se já tantos anos, mas parece que tempo não há.

Foram tantas as tardes de janeiro a jogar conversa fora, no colo, ao seu lado, pendurada em sua saia, ou simplesmente parada, curiosa, perguntando coisas, imaginando outras e compartilhando tudo! E para tudo havia respostas, soluções ou uma brincadeira gostosa, sem medo, simples, sincera, inesquecível!

Os ares mornos dos tempos de criança se instalam na gente para sempre, quem sabe para voltarmos até lá de vez em quando, em busca de equilíbrio e de renovar as energias perdidas nesta vida de gente grande, moradores que somos desta cidade que engole gente. Tudo se solta, então, agregando paz, liberdade e emoção ao dia a dia.

Aqueles tempos, quando a mesa da cozinha alinhava-se pouco abaixo do meu olhar de menina, vivemos dias verdadeiramente especiais, recheados de brincadeiras simples e presenciando as delícias que brotavam das mãos dela. Que sensação de bem estar me trazem essas lembranças!

Minha avó era uma mulher pequena, amorosa e altamente generosa, como poucas pessoas deste mundo. Filha de espanhóis, de quem herdou o ar sincero e o olhar franco e firme a encarar as pessoas por pura simpatia. Gostava de conversas sobre os antepassados e as viagens que um dia fizeram, vindos de navio de uma ilha distante. Sobre esse assunto sabia detalhes sutis, meio mágicos, e os repetia para mim, que respirava devagar para não perder sequer uma vírgula da história. Era tão bom ouvi-la! Amava a leitura e a poesia, plantando uma semente boa na alma desta que recorda e escreve agora.

Era ótima cozinheira, deixando que seu talento a levasse, seduzida pelos cheiros de temperos e de guloseimas tantas! Sopas, caldos e doces; bolinhos, licores e tortas de toda sorte.

Sovava a massa do pão contando como o fazia a mãe, repetindo o gesto, de punhos fechados, sem perceber que há muito copiava o jeito dela, reproduzindo a maneira espanhola de fazê-lo. Entre todas as verdadeiras dádivas, tinha uma especialidade que a tornou única, inigualável: fazia as melhores balas de coco do planeta. Mas isso devo contar tim-tim por tim-tim.

Não sei sua receita, acho até que não a tinha. Sempre penso que do alto descia uma fina luz cintilante que a inspirava e tudo saía, sempre, pra lá de bom.

Para as balas, leite de coco e açúcar, certamente. As quantidades, porém, não sei. Colocava-os na panela, fogo brando e nada de mexer, “açucara”, dizia. O cheiro era de arrasar e a cozinha ficava cheia de crianças: eu, minhas irmãs, primos e primas. Como era bom! Olhava a mistura como quem toma conta de uma joia que se depura e encorpa, à mercê do fogo. Depois de certo tempo, chegava a hora de “controlar o ponto”, o que é de vital importância, determinando o sucesso da feitura. Colocava água fria em uma xícara, pingando de vez em quando uma porção do que viria a ser bala. Mergulhava os dedos na água, buscando agregar a mistura cremosa e macia. Muitas vezes, a bala se desmanchava, revelando o estado prematuro do puxa-puxa. Jogava a água fora, então, e enchia a xícara de novo, repetindo o gesto até que conseguisse uma bolinha ainda mole e pegajosa, no ponto! A criançada, a essa altura, não aguentava mais a espera. Tirava, então, uma porção para cada uma, antes da próxima etapa.

Sobre a pia de mármore, espalhava manteiga e despejava a bala toda, que fumegava e brilhava, sob os raios de sol que entravam pela fresta da janela, espalhando-se lentamente pela superfície da pedra fria.

Ai, que cheiro bom! Que saudades da vovó!

A bala ainda não trabalhada era fina, brilhante e lisa, amalgamada em branco amarelado. Havia de esfriar para que se pudesse pegá-la, a fim de terminar o intento. Tirava, para isso, tudo de sobre a mesa, limpando-a com um pano úmido, apressadamente; nela seria colocada a bala, antes do corte. Quando a massa esfriava um pouco, chegava o melhor momento, ao menos para nós que assistíamos e pululávamos à sua volta. Com grande destreza, própria de quem estava acostumada ao calor das panelas, tomava em suas mãos a bala ainda morna, esticando-a e juntando novamente as pontas, muitas vezes, até que a cor se transformava, tendendo para o branco cintilante como a pérola. Era um momento crucial! A bala, então, deveria ser esticada bem depressa, dando voltas sobre o tampo verde, como uma cobra enorme enredada na mata!

Nós roubávamos pedacinhos, adoçando a boca, enquanto a tarefa era finalizada com muita concentração, rapidamente, antes que a bala secasse e fosse impossível o seu corte. Suas mãos calejadas pelo trabalho que amava, torciam e puxavam a massa para que as balas ficassem finas e resultassem pequenas no final.

A tesoura, previamente preparada, agora nas mãos da vovó, executava a última tarefa, cortando sem perda de tempo a bala alongada, fazendo pular as balinhas e transformando a mesa em uma festa!

As balas, já frias, completavam a mágica da transformação cromática, finalmente brancas como algodão, brancas como são balas de coco, como a luz que se foi, mas que nunca se apagou.

Há coisas que vivemos, pessoas que amamos, momentos que foram anos e anos a se esperar. Há tempo que se conta e tempo a se demorar, mas todo esse mundo na alma, o riso na face, o doce na boca, o simples pensar, transpiram vida onde já não há; e mesmo que o tempo passe e faça tudo se acabar, o bom da vida fica comigo, e fica para me acalentar.

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Acomodados no sofá

Nas tardes de verão em São Paulo, todas as faces cansadas se encontram como vissem a si próprias refletidas nas faces dos outros. Todos se assemelham em suas angústias causadas, entre outras coisas, pela dificuldade imensa que encontram ao se deslocarem de casa ao trabalho e vice-versa. O sol escaldante na cidade da garoa torna-se um paradoxo, mediante a fama internacional da megalópole que pode abrigar várias estações em um só dia.

Todos, com bem poucas exceções, saem de casa com mochilas enormes, contendo o material necessário para o trabalho, um lanche reforçado e agasalhos leves, além de guarda-chuvas e outros badulaques aparentemente primordiais para o dia fora de casa. Tudo pode acontecer, em matéria de clima.

Há os que não se importam e saem de mãos vazias, prestando atenção ao entorno e despreocupados, vivendo o momento e sós.

Alguns viajam horas até o trabalho, trocando de ônibus várias vezes, ou revezando o meio de transporte, dos próprios pés aos trens e aos ônibus circulares. Mas há aqueles que do trabalho são vizinhos, praticamente, se considerarmos as distâncias vencidas pela maioria. Uma condução apenas e chegam ao destino.

Em minha rua há alguém que escolheu seu endereço, montando a casa em frente à minha, mais perto do trabalho do que qualquer conhecido. Desconheço seu nome e sua voz, mas observo essa figura tão estranha, como quem quer entender algo inexplicável. Ele é baixo e acima do peso, de cabelos escuros, crespos, volumosos e longos, divididos ao meio, como um guru de Woodstock, ou um ogro de desenho. Como se usasse uma máscara permanente, fecha o cenho e dirige o olhar para a frente, sempre, como se ali houvesse um vazio, mantendo o olhar firme, mas certamente perdido, ignorando o mundo habitado por gente. A boca cerrada, como uma estátua de pedra guardando um segredo antigo, não diz palavra. Olha, apenas. Usa chinelos, veste bermudas surradas e busca trabalho no lixo separado por espécie: plástico, vidro ou papel. Em minha rua isso existe. Anda de bicicleta e é intrigante quando pedala, lembrando um urso de circo sobre o selim estreito, deixando a grande pança à mostra, destituída de camiseta. Toma sol, coisa para poucos por aqui, apesar do calor estafante.

Sua mudança veio em um carrinho, tendo tudo de que precisa.  Mora neste bairro, revezando o sítio conforme as condições do momento. Escolhe o local em que obras estão em andamento, casas destinadas ao aluguel, mas ainda desocupadas, que, no mínimo, ofereçam um beiral ou árvore grande, para sustentar sua tenda feita com metros de plástico reforçado, cobrindo o colchão surrado que veio com a tralha toda. Água corrente também deve ter, uma torneira ou apenas um ponto do qual possa fazer uso, banhando-se com um balde, esfregando os cabelos com shampoo ali mesmo na rua, e também um ponto elétrico, para fazer um gato, afinal, sem luz para a leitura e para televisão, a vida ficaria insuportável. Pela manhã, acorda e faz a faxina, dobrando o seu telhado e arrumando tudo sem deixar nada à mostra. Toma sua condução e segue por algum caminho imaginário enquanto pedala com vigor.

À noite podemos ver sua imagem difusa através do plástico translúcido, recostado à mureta, como fosse a cabeceira da cama, assistindo TV ou lendo algo de teor desconhecido, sob uma luz opaca, mas visível. Ninguém o rouba, e ele também não teme. Não há uma mesa para os livros, mas ele os tem e lê. Cozinha também não há, mas come e dorme, sei lá como, nessas condições.

Quando algo o importuna, quer seja o proprietário por direito, ou um pretendente ao aluguel, ele enrola o colchão, embala os pertences e segue seu rumo, em duas viagens, uma a pé, levando o carrinho, e outra, em seguida, sobre a bicicleta, pedalando. Resumira seu mundo assim.

Volta e meia vejo essa pessoa por aí, vizinho de alguém em nosso bairro, igualmente intrigando outras pessoas que o olham com cara de interrogação, para a qual ele não tem a resposta, nem muito menos nós, que colocamos de volta a mente nos trilhos e as mãos em nossas tarefas cotidianas, tirando pó dos móveis, lavando a louça, pagando contas, escrevendo contos e, finalmente, ajeitando as almofadas no canto do sofá para mais um Jornal Nacional sangrento, premeditado e religiosamente constante.

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