Acomodados no sofá

Nas tardes de verão em São Paulo, todas as faces cansadas se encontram como vissem a si próprias refletidas nas faces dos outros. Todos se assemelham em suas angústias causadas, entre outras coisas, pela dificuldade imensa que encontram ao se deslocarem de casa ao trabalho e vice-versa. O sol escaldante na cidade da garoa torna-se um paradoxo, mediante a fama internacional da megalópole que pode abrigar várias estações em um só dia.

Todos, com bem poucas exceções, saem de casa com mochilas enormes, contendo o material necessário para o trabalho, um lanche reforçado e agasalhos leves, além de guarda-chuvas e outros badulaques aparentemente primordiais para o dia fora de casa. Tudo pode acontecer, em matéria de clima.

Há os que não se importam e saem de mãos vazias, prestando atenção ao entorno e despreocupados, vivendo o momento e sós.

Alguns viajam horas até o trabalho, trocando de ônibus várias vezes, ou revezando o meio de transporte, dos próprios pés aos trens e aos ônibus circulares. Mas há aqueles que do trabalho são vizinhos, praticamente, se considerarmos as distâncias vencidas pela maioria. Uma condução apenas e chegam ao destino.

Em minha rua há alguém que escolheu seu endereço, montando a casa em frente à minha, mais perto do trabalho do que qualquer conhecido. Desconheço seu nome e sua voz, mas observo essa figura tão estranha, como quem quer entender algo inexplicável. Ele é baixo e acima do peso, de cabelos escuros, crespos, volumosos e longos, divididos ao meio, como um guru de Woodstock, ou um ogro de desenho. Como se usasse uma máscara permanente, fecha o cenho e dirige o olhar para a frente, sempre, como se ali houvesse um vazio, mantendo o olhar firme, mas certamente perdido, ignorando o mundo habitado por gente. A boca cerrada, como uma estátua de pedra guardando um segredo antigo, não diz palavra. Olha, apenas. Usa chinelos, veste bermudas surradas e busca trabalho no lixo separado por espécie: plástico, vidro ou papel. Em minha rua isso existe. Anda de bicicleta e é intrigante quando pedala, lembrando um urso de circo sobre o selim estreito, deixando a grande pança à mostra, destituída de camiseta. Toma sol, coisa para poucos por aqui, apesar do calor estafante.

Sua mudança veio em um carrinho, tendo tudo de que precisa.  Mora neste bairro, revezando o sítio conforme as condições do momento. Escolhe o local em que obras estão em andamento, casas destinadas ao aluguel, mas ainda desocupadas, que, no mínimo, ofereçam um beiral ou árvore grande, para sustentar sua tenda feita com metros de plástico reforçado, cobrindo o colchão surrado que veio com a tralha toda. Água corrente também deve ter, uma torneira ou apenas um ponto do qual possa fazer uso, banhando-se com um balde, esfregando os cabelos com shampoo ali mesmo na rua, e também um ponto elétrico, para fazer um gato, afinal, sem luz para a leitura e para televisão, a vida ficaria insuportável. Pela manhã, acorda e faz a faxina, dobrando o seu telhado e arrumando tudo sem deixar nada à mostra. Toma sua condução e segue por algum caminho imaginário enquanto pedala com vigor.

À noite podemos ver sua imagem difusa através do plástico translúcido, recostado à mureta, como fosse a cabeceira da cama, assistindo TV ou lendo algo de teor desconhecido, sob uma luz opaca, mas visível. Ninguém o rouba, e ele também não teme. Não há uma mesa para os livros, mas ele os tem e lê. Cozinha também não há, mas come e dorme, sei lá como, nessas condições.

Quando algo o importuna, quer seja o proprietário por direito, ou um pretendente ao aluguel, ele enrola o colchão, embala os pertences e segue seu rumo, em duas viagens, uma a pé, levando o carrinho, e outra, em seguida, sobre a bicicleta, pedalando. Resumira seu mundo assim.

Volta e meia vejo essa pessoa por aí, vizinho de alguém em nosso bairro, igualmente intrigando outras pessoas que o olham com cara de interrogação, para a qual ele não tem a resposta, nem muito menos nós, que colocamos de volta a mente nos trilhos e as mãos em nossas tarefas cotidianas, tirando pó dos móveis, lavando a louça, pagando contas, escrevendo contos e, finalmente, ajeitando as almofadas no canto do sofá para mais um Jornal Nacional sangrento, premeditado e religiosamente constante.

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8 Comentários

Arquivado em Histórias da cidade de São Paulo

8 Respostas para “Acomodados no sofá

  1. Beatriz

    muito bom tia você ta escrevendo super bem, alias bem pitoresco esse tipo que mora por ai ein ahhahah. um beijo

  2. M. Valéria

    Dê, que delícia ler suas palavras! Eu teria ficado muito intrigada com uma pessoa assim para observar por perto de casa. Continue escrevendo. Como a Bia falou, está cada dia melhor! Beijo,

  3. Elisangela

    Bom a senhora disse que sua irmã e sua sobrinha são suspeitas para fazer qualquer comentário a respeito do que escreve, porém eu sou suspeita número um, afinal sou sua fã incondicional. Lendo o que escreve só faz aumentar minha admiração, e me inspiro para quem sabe um dia quando eu crescer eu possa pelo menos ter a oportunidade de parecer um pouquinho contigo rsrsrs… É lindo acho que no segundo paragrafo a senhora tava falando de mim… brincadeira Bjs

  4. Maria Carolina

    Muito lindo… Mande para um jornal…Beijo

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