Balas de coco

Passaram-se já tantos anos, mas parece que tempo não há.

Foram tantas as tardes de janeiro a jogar conversa fora, no colo, ao seu lado, pendurada em sua saia, ou simplesmente parada, curiosa, perguntando coisas, imaginando outras e compartilhando tudo! E para tudo havia respostas, soluções ou uma brincadeira gostosa, sem medo, simples, sincera, inesquecível!

Os ares mornos dos tempos de criança se instalam na gente para sempre, quem sabe para voltarmos até lá de vez em quando, em busca de equilíbrio e de renovar as energias perdidas nesta vida de gente grande, moradores que somos desta cidade que engole gente. Tudo se solta, então, agregando paz, liberdade e emoção ao dia a dia.

Aqueles tempos, quando a mesa da cozinha alinhava-se pouco abaixo do meu olhar de menina, vivemos dias verdadeiramente especiais, recheados de brincadeiras simples e presenciando as delícias que brotavam das mãos dela. Que sensação de bem estar me trazem essas lembranças!

Minha avó era uma mulher pequena, amorosa e altamente generosa, como poucas pessoas deste mundo. Filha de espanhóis, de quem herdou o ar sincero e o olhar franco e firme a encarar as pessoas por pura simpatia. Gostava de conversas sobre os antepassados e as viagens que um dia fizeram, vindos de navio de uma ilha distante. Sobre esse assunto sabia detalhes sutis, meio mágicos, e os repetia para mim, que respirava devagar para não perder sequer uma vírgula da história. Era tão bom ouvi-la! Amava a leitura e a poesia, plantando uma semente boa na alma desta que recorda e escreve agora.

Era ótima cozinheira, deixando que seu talento a levasse, seduzida pelos cheiros de temperos e de guloseimas tantas! Sopas, caldos e doces; bolinhos, licores e tortas de toda sorte.

Sovava a massa do pão contando como o fazia a mãe, repetindo o gesto, de punhos fechados, sem perceber que há muito copiava o jeito dela, reproduzindo a maneira espanhola de fazê-lo. Entre todas as verdadeiras dádivas, tinha uma especialidade que a tornou única, inigualável: fazia as melhores balas de coco do planeta. Mas isso devo contar tim-tim por tim-tim.

Não sei sua receita, acho até que não a tinha. Sempre penso que do alto descia uma fina luz cintilante que a inspirava e tudo saía, sempre, pra lá de bom.

Para as balas, leite de coco e açúcar, certamente. As quantidades, porém, não sei. Colocava-os na panela, fogo brando e nada de mexer, “açucara”, dizia. O cheiro era de arrasar e a cozinha ficava cheia de crianças: eu, minhas irmãs, primos e primas. Como era bom! Olhava a mistura como quem toma conta de uma joia que se depura e encorpa, à mercê do fogo. Depois de certo tempo, chegava a hora de “controlar o ponto”, o que é de vital importância, determinando o sucesso da feitura. Colocava água fria em uma xícara, pingando de vez em quando uma porção do que viria a ser bala. Mergulhava os dedos na água, buscando agregar a mistura cremosa e macia. Muitas vezes, a bala se desmanchava, revelando o estado prematuro do puxa-puxa. Jogava a água fora, então, e enchia a xícara de novo, repetindo o gesto até que conseguisse uma bolinha ainda mole e pegajosa, no ponto! A criançada, a essa altura, não aguentava mais a espera. Tirava, então, uma porção para cada uma, antes da próxima etapa.

Sobre a pia de mármore, espalhava manteiga e despejava a bala toda, que fumegava e brilhava, sob os raios de sol que entravam pela fresta da janela, espalhando-se lentamente pela superfície da pedra fria.

Ai, que cheiro bom! Que saudades da vovó!

A bala ainda não trabalhada era fina, brilhante e lisa, amalgamada em branco amarelado. Havia de esfriar para que se pudesse pegá-la, a fim de terminar o intento. Tirava, para isso, tudo de sobre a mesa, limpando-a com um pano úmido, apressadamente; nela seria colocada a bala, antes do corte. Quando a massa esfriava um pouco, chegava o melhor momento, ao menos para nós que assistíamos e pululávamos à sua volta. Com grande destreza, própria de quem estava acostumada ao calor das panelas, tomava em suas mãos a bala ainda morna, esticando-a e juntando novamente as pontas, muitas vezes, até que a cor se transformava, tendendo para o branco cintilante como a pérola. Era um momento crucial! A bala, então, deveria ser esticada bem depressa, dando voltas sobre o tampo verde, como uma cobra enorme enredada na mata!

Nós roubávamos pedacinhos, adoçando a boca, enquanto a tarefa era finalizada com muita concentração, rapidamente, antes que a bala secasse e fosse impossível o seu corte. Suas mãos calejadas pelo trabalho que amava, torciam e puxavam a massa para que as balas ficassem finas e resultassem pequenas no final.

A tesoura, previamente preparada, agora nas mãos da vovó, executava a última tarefa, cortando sem perda de tempo a bala alongada, fazendo pular as balinhas e transformando a mesa em uma festa!

As balas, já frias, completavam a mágica da transformação cromática, finalmente brancas como algodão, brancas como são balas de coco, como a luz que se foi, mas que nunca se apagou.

Há coisas que vivemos, pessoas que amamos, momentos que foram anos e anos a se esperar. Há tempo que se conta e tempo a se demorar, mas todo esse mundo na alma, o riso na face, o doce na boca, o simples pensar, transpiram vida onde já não há; e mesmo que o tempo passe e faça tudo se acabar, o bom da vida fica comigo, e fica para me acalentar.

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14 Comentários

Arquivado em Reminiscências

14 Respostas para “Balas de coco

  1. Adriana

    Caramba, conheço essas imagens…
    Que gostoso!

    Obrigada,
    Beijão!

  2. Carô

    Muito lindo…

  3. Ester Barbosa

    Nossa Vania lindo lindo! tô com bala na boca, quer dizer água na boca rsrsrs Amei! Vovó é tudo de bom, infância combina mto com doce! Ainda ontem estava lembrando de como era bom qdo vovó vinha em casa! a diferença é que ela dava o dinheirinho pra gente comprar doces no Sr. Severino rsrsr
    bjão
    PS: vou indicar seu site pra mais pessoas minha mãe vai adorar e uma profª daqui da escola que escreve tb

  4. edemar p

    Muito bonito…

  5. Elisangela

    Não participei desse seu momento da vida, mas também tive minhas balas de coco.
    Mesmo em culturas diferentes, avós são todas iguais né?
    Lembro-me daquela senhora “matuta”, criada no mato (era índia), mantinha sempre lenha no fogão, e como todo bom mineiro, não podia faltar o angu e a couve refogada, e quando os netos chegavam era a festa dos velhinhos.
    Primeiro tínhamos que cuidar da “lida na roça” junto com ela, na verdade não conseguíamos sequer levantar a enxada, mas para ela era gratificante.
    Na hora do almoço ela pegava aquele prato fundo de ferro esmaltado, e com todo carinho colocava a refeição, e não era um prato para cada neto, por isso já pegava o prato fundo. Ela fazia uma mistura de tudo aquilo que colocava, arroz, feijão, angu, couve, galinha com molho, hum que delícia apesar do tempo que passou posso até sentir o cheiro, fazia uma roda “da gente” sentado no chão e com a própria mão colocava na nossa boca, assim ela aprendeu com a mãe dela que vivia em aldeia. O mais engraçado é que com a própria mão que colocava a comida ela limpava o canto das bocas, parece primitivo né, mas foi a melhor fase da minha infância…
    Tempos que não voltam, mas deixam marcas que até parecem que foram feitas ontem.
    Beijos me ajudou a lembrar um pouco de quem sou, já que essa cidade nos sufoca e tira todo nosso tempo.

    • Elis, sem palavras de minha parte. Seu texto e sua história são lindas! Fica aqui exposto para quem quiser ler e saber mais sobre gente especial como você. Muito obrigada.

  6. Nanda

    Mãe,

    Impressionante como a “minha vovó” a filha desta que você descreve também se encaixa nesse quadro lindo… consigo ver a vovó Clá na minha infância… nos mesmos moldes.

    Mto lindo mesmo

    Bjs

  7. Bia

    eu também lembrei da vó clá ela se enquadra perfeitamente nessa história, aqui de longe me fez sentir muita saudade da chacara e de quando todos os primos ficavam uma semana la. muito bonito tia um beijo pra todos.

    • Oi minha linda! Com você falando assim, me convenço de que nessa família todas as avós são iguais, e penso que vou ser assim também. Minha avó era adorável, assim como a sua.Quanto à distância, bom, só de pensar que você e a Nanda estão tão longe, a saudade aumenta. Mas é uma saudade boa, recheada de bons sentimentos. Beijão e se cuide.

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