Arquivo do mês: agosto 2011

A vida e a casa (A história de Yayá)

Hoje estive entre ruínas, buscando mais sobre a história da cidade ou, melhor dizendo, sobre a de seus moradores, muito mais do que sobre as casas, mansões, casarões e palacetes que, teimosamente, sobrevivem até o início deste século XXI. Estas representam um sem-número de construções que denotam, por suas cicatrizes, as agruras que viveram. Muitas não suportaram o peso dos anos, a pressão dos tempos, a força devastadora do poder econômico, sucumbindo em noites de lua cheia, logo após o estampido da bomba detonada em seus alicerces.

Se acaso se quiser saber a respeito da história desses edifícios, há órgãos governamentais que se esmeram em arquivar projetos antigos, fotos amareladas clicadas de ângulos diferentes, cópias de escrituras de compra e venda, além de originais de tombamento e desapropriações, estas últimas contribuindo, certamente, para arruinar também os proprietários, muitas vezes no limite da derrocada na década de 70. A partir desses dados e, muitas vezes, de uma visita ao local, pode-se delinear uma trajetória muito precisa do edifício em questão. Porém, o que dizer de seus ocupantes, protagonistas de um momento glamoroso da cidade? Alguns sites da rede apresentam imagens belíssimas, que se limitam ao circunscrito no âmbito da arquitetura. Esboçam alguns traços sobre os proprietários, ainda que tímidos e cheios de recato, como se as casas guardassem segredos que, bem por isso, aguçam a curiosidade de quem lê, fazendo a imaginação flutuar como um balão de gás sobrevoando o espigão da Paulista. Certamente coloco-me em meio a esse tipo de leitor curioso, procurando pelo não dito, que permeia o texto, escondendo-se nas entrelinhas e frestas do reboco antigo.

Aos poucos, emerge, entre tantas informações, uma história pessoal que supera em muito a de sua casa. Ao contrário das demais, esta tem revelado o caminho percorrido por sua moradora solitária, enlouquecida e muito triste, que passou anos e anos confinada aos limites de seu palacete.

A casa, localizada na Rua Major Diogo, chegou às mãos do governo e hoje abriga o Centro de Preservação e Cultura da USP, paradoxalmente servindo à comunidade, depois de ser a gaiola de ouro de alguém.

Sebastiana de Melo Freire, conhecida como Yayá, nascida em “berço esplêndido”, é vítima de uma série de perdas, incluindo a de duas irmãs, em situações diversas, perda essa seguida pela dos pais, com uma diferença de dois dias. Restou-lhe apenas o irmão, de dezessete anos, chamado Manuel. Ela estudava no Sion, tinha amigas, adorava viajar, era amante de fotografia e levava uma vida normal, dentro das possibilidades extraordinárias que tinha, descartando-se a dor provocada pela saudade dos que partiram. Morava com o irmão e tinha a tutela de Albuquerque Lins, um importante político paulista. Em uma viagem de navio a Buenos Ayres, o irmão enlouquece e, depois de um acesso, ao primeiro descuido do pessoal de bordo, atira-se ao mar, pondo um fim à própria vida e deixando a garota completamente sozinha.

Sim, a pobre se viu só no mundo, cercada de luxo e riquezas que de nada lhe valiam. É assim que enlouquece aos trinta e quatro anos, no início da década de 1920. É sabido que a psiquiatria engatinhava, naquele tempo, e muito pouco se pôde fazer, então. O melhor médico, talvez do Brasil, alimentou a idéia que veio a confiná-la em meio à pujança, sem que dela pudesse usufruir nem ao menos um pouco. A casa da Bela Vista foi comprada, então, e adaptada para ser o sanatório de uma única paciente. A janela do cômodo em que ela ficava foi reduzida ao mínimo, de maneira que passasse água e comida, e só podia ser aberta pelo lado de fora. As torneiras de seu banheiro foram retiradas, para que não se ferisse. As paredes foram pintadas, a fim de facilitar a limpeza. A doença tornara Yayá violenta, fazendo com que tentasse o suicídio e batesse com a cabeça contra as paredes, gritasse impropérios e ficasse totalmente irreconhecível. Por esse motivo, não podia sair, literalmente alienada da sociedade. Moravam com ela vários empregados, encarregados de manter a casa, enfermeiras que se revezavam em seus cuidados e uma amiga querida.

Ao se perder tudo quanto se preza, não são poucos os casos em que a loucura passa a ser o único caminho possível. Yayá foi definhando, devorada pela doença implacável. Morreu em 1961, no Hospital São Camilo, aos setenta e quatro anos, quarenta dos quais vividos entre quatro paredes, com poucas saídas para um solarium. Não havia parentes para chorarem sua morte, nem mesmo os distantes, que passaram a vida esperando por sua herança, mas se foram primeiro. Acaba ali uma vida inexplicável, se por meios materialistas, antagonicamente proprietária de uma fortuna imensa que lhe garantiu apenas o isolamento e a espera quase interminável pela morte que, enfim, lhe trouxe o alívio.

Todos os seus bens, que eram muitos, foram considerados vacantes e passaram para as mãos da USP, que acertadamente os destinou aos mais variados propósitos, todos voltados para os alunos e para a comunidade de maneira geral. A Casa da Rua Major Diogo foi restaurada, tendo sido descobertos os afrescos que foram escondidos pela tinta lavável. Foi desvendada a história da construção, por meio das marcas deixadas durante ampliações sucessivas, em tempos anteriores a Yayá. Foi possível traçar uma linha do tempo, listando os vários proprietários, trazendo luz ao que nebuloso permanecia, transformando tudo em história e deixando descansar em paz aquela que paz não tinha.

A cada camada de tinta removida, apagavam-se as marcas deixadas pela estada de Yayá sobre terras paulistanas. Ninguém, porém, passa por este mundo sem que o modifique de alguma forma, quer seja por um sorriso generoso, por um gesto de amor, pela amizade oferecida, pela presença muda e constante, pela aceitação do outro, pelo costume de perdoar ou tolerar, ou mesmo por um legado inconsciente, materializado em uma fortuna imensa, deixada por alguém cuja mente se quedou indelevelmente incurável.

A casa é aberta à visitação pública durante alguns dias da semana. Dizem que, ao adentrarmos pela porta principal, podemos sentir a amargura e a tristeza, que serão eternas nesta casa cuja história se confunde com a tragédia vivida por Dona Yayá.

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Arquivado em Histórias da cidade de São Paulo