Arquivo do mês: setembro 2011

Músicas e músicos

A música enche as noites de Sampa!

Espalhados por toda a cidade, os bares, pubs, restaurantes e todo tipo de casas noturnas presenteiam os habitués com ela, a música, personificada pelas mãos dos artistas da noite. Desconhecidos da maioria chegam carregados de cases, maletas, fios e baquetas, violões, guitarras, baterias e vozes. Marcam com seu desempenho a casa em que tocam, emprestando ao lugar a personalidade da música que produzem. Sambas, baladas, rock maduro, salsa, merengue, blues e metal. A cidade generosa abraça essa fauna e a sorve em grandes goles, como remédio para qualquer cura.

Há virtuoses que nunca tiveram maior chance, ou talvez nem a queiram, enlevados pelo som que tiram de seus instrumentos em conjunto, entrando em verdadeiro transe enquanto solam e se entregam ao ato de tocar, como se estivessem sós, em algum canto isolado deste mundo. Vibram as mãos e o corpo inteiro, eletrificado como o violão de sete cordas que dá o tom, mas deixa-se levar, entregue aos devaneios de quem o tange. O prazer degustado é impagável, insubstituível, inenarrável! Percebe-se o raro equilíbrio do ser, a transcendência ao mundo visível em prol do absoluto, do perfeito, do insuperável.

E mesmo os que desprezam a fama dobram-se, tímidos, sobre o ventre, em reverência ao público que os ouve e aplaude, reconhecendo-se como detentores de algo divino e sensacional como intérpretes desse mundo louco, capazes de entreter as mentes dos que os assistem, devolvendo um pouco da luz que se perdeu nas situações do cotidiano.

Volta e meia aparecem os mais excêntricos, libertos das obrigações do dia a dia, escancarando a face mais expressiva de si, solta na madrugada na cidade. Cabelos imensos trançados ou enrolados, grandes gorros coloridos, anéis em profusão, há tantas versões a se ver e encontrar por aí!

Encontrei um assim, em uma noite de sexta-feira, enquanto ouvia música em uma esquina especial da cidade. Ele vinha envolto em uma nuvem de misteriosa fantasia, trajado como um indiano de mosteiro. Vestia bata branca de algodão, calças de boca larga, sapatilhas indianas e o pensamento também. Saíra do túnel do tempo, certamente passando por algum portal indefinido, mas voltara envelhecido, não mais aos dezesseis. Era moreno, cabelos grisalhos e semilongos, que o colocavam em uma esfera qualquer, diferente da massa que povoava o bar. Um pequeno séquito de seguidores enrolava-se à sua volta, chamando a atenção das pessoas que se divertiam, mais pela presença inusitada e teatral do que por outro motivo qualquer. O místico desconhecido empombava-se, olhando lateralmente para todos, derramando sua superioridade presumida, enquanto passava, certo de estar sendo recebido como um ilustre personagem de algum conto asiático ao adentrar um palácio de desenho animado. Faltavam almofadas de lamé, luzes dirigidas, tapetes vermelhos, fila de fãs a pedirem autógrafos, mas, mesmo assim, a face enrugada nem tentou esconder sua postura anos-luz acima dos simples mortais que ali se aglomeravam escutando um blues.

As pessoas do lugar curtiam a música que tocava, fazendo um coro suave quando se lembravam da letra, encorpando a energia boa de lá. Alguém, então, resolveu apresentar o ilustre visitante aos clientes da casa, trazendo-o, de seu confortável banquinho, evidentemente contrariado. Em meio ao burburinho acrescentado de violões e vozes, ninguém entendeu seu nome. “Este é M@c*v#k, o maior tocador de R&n*d@k do Brasil!”. Eu e meus vizinhos de mesa, com cara de pergunta, educadamente nos apresentamos: “muito prazer, eu sou Fulano de Tal”, ao que ele respondia, todas as vezes: “muito prazer, Não Sei Quem Sou”.

Vejam vocês, não entendemos quem ele era e nem ele parecia saber, mais preocupado em bancar o músico enfadado com o assédio de supostos fãs, sem se dar conta de que estávamos ali pelo blues bem tocado e para celebrarmos o final bem cumprido de uma semana tensa, apesar do estrelismo evidente e totalmente fora de hora! Que pobreza!

Passado o turbilhão ridículo, voltamos nossos olhos e ouvidos ao blues honesto, trazido pela voz anasalada do cantor e concretizado pelas mãos dos músicos senhores da noite, dessa noite e de tantas que ainda virão. Cantarolamos os refrões e deixamos os corpos à deriva, balançando levemente, embalando nossas almas ao som dos acordes marcantes e conhecidos, retomando o leme da vida real e verdadeiramente simples como um blues bem levado, apagando dessa noite, e talvez para sempre, o sr. Não Sei Quem Sou e sua comitiva de sombras sem nome, fora de lugar e evidentemente equivocados.

A música chega ao fim e as vozes abafadas por ela tomam conta do ambiente, enchendo o ar de risos e palavras de alegria. Os instrumentos voltam para suas caixas e dormem em paz. As pessoas se acotovelam no corredor, alongando a fila do caixa, que trabalha mais quando a música cessa, demonstrando claramente que Ela é quem traz grande parte da plateia. Volto também para casa ainda mais feliz, por saber profunda e sinceramente meu nome, meu canto e meu Senhor.

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Arquivado em São Paulo histórias