Arquivo da categoria: Histórias da cidade de São Paulo

Lago

Lago espelho calmo

Fina pedra rola

Causa grande espanto

Margem branca assola

 

Fica marca doce

Monta guarda breve

Como alma fosse

Quase sempre escreve

 

Muda a cor do ramo

Lua que consola

Outra vez, de novo,

Pensamento isola

 

(sobre o momento de escrever)

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Arquivado em Histórias da cidade de São Paulo, Poetando

Chove-me

Da janela ao lado contemplo o melhor da cidade. A distância imensurável, ao menos daqui, as árvores traiçoeiras nesta época do ano, as nuvens carregadas da água imprescindível, os prédios taciturnos, o movimento da Rebouças, incansável! Os sons se misturam e criam a música infernal de ventania, trovoadas, portas que se chocam contra os caixilhos, motores desregulados e sirenes ininterruptas.

Chove?

Choverá, talvez, e o ar pesado se quebrará em micropartículas invisíveis, explodindo nas faces dos passantes, nos telhados aquecidos, no asfalto detonado, nos gritos reprimidos de medo, de fome e de solidão. A opressão que antecede a precipitação iminente é a mesma de sempre e todos aceleram o passo, a mente, o carro, a vida. Poucos segundos resumem o tempo desperdiçado pelos cantos da cidade, e o cansaço toma conta do pedaço mais calmo do dia.

Sento!

Chove-me na alma clara de acordar o dia. Chovem-me dos olhos lágrimas que eu não queria. Chove na cidade e sinto que eu não choveria, fosse dos olhos água fonte de alegria. Chovem sonhos em meio à calmaria, chove o abraço forte como bem se via. Chove a palavra doce, chove a alegria, chove a vida que segue, mesmo à revelia.

Paro!

Logo à penumbra segue a forte luz do dia, nuvens de seguir a tempo outra calmaria. Frestas dessa luz devolvem real fantasia, Vida de se ter mais paz e muito mais valia.

(A chuva repentina e a falta que meu pai me faz)

 

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Sons de Sampa

O som alucinado da cidade me enfeitiça. Escrevo em meio a tudo o que ecoa, refletindo o desespero da cidade em alerta. Sampa!

Resume-se o dia em sons de arrepiar e até o portão que se fecha ao longe grita, como alma sedenta de silêncio.

Foge-se do impossível, evita-se o intolerável, rompe-se a fronteira do entendimento e joelhos se dobram em preces anormais, em momentos surreais.

Escrevem-se folhetos que são jogados em sarjetas, incessantemente. Distribuem-se avisos que rolam em enxurradas, beiram estradas e são conduzidos para o mesmo velho, desgastado e estupefato rio. Pobre! Pensamentos de pesar são ouvidos como pedidos de socorro, por seres impotentes e omissos. Recados são mandados, enquanto petições encabeçam demandas. Amontoam-se prescrições, bilhetes e desejos sem respostas. Sabidamente, a palavra é vencida e as águas se atolam em meio ao que resta da cidade enorme que engole gente e igualmente grita. Sampa!

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A vida e a casa (A história de Yayá)

Hoje estive entre ruínas, buscando mais sobre a história da cidade ou, melhor dizendo, sobre a de seus moradores, muito mais do que sobre as casas, mansões, casarões e palacetes que, teimosamente, sobrevivem até o início deste século XXI. Estas representam um sem-número de construções que denotam, por suas cicatrizes, as agruras que viveram. Muitas não suportaram o peso dos anos, a pressão dos tempos, a força devastadora do poder econômico, sucumbindo em noites de lua cheia, logo após o estampido da bomba detonada em seus alicerces.

Se acaso se quiser saber a respeito da história desses edifícios, há órgãos governamentais que se esmeram em arquivar projetos antigos, fotos amareladas clicadas de ângulos diferentes, cópias de escrituras de compra e venda, além de originais de tombamento e desapropriações, estas últimas contribuindo, certamente, para arruinar também os proprietários, muitas vezes no limite da derrocada na década de 70. A partir desses dados e, muitas vezes, de uma visita ao local, pode-se delinear uma trajetória muito precisa do edifício em questão. Porém, o que dizer de seus ocupantes, protagonistas de um momento glamoroso da cidade? Alguns sites da rede apresentam imagens belíssimas, que se limitam ao circunscrito no âmbito da arquitetura. Esboçam alguns traços sobre os proprietários, ainda que tímidos e cheios de recato, como se as casas guardassem segredos que, bem por isso, aguçam a curiosidade de quem lê, fazendo a imaginação flutuar como um balão de gás sobrevoando o espigão da Paulista. Certamente coloco-me em meio a esse tipo de leitor curioso, procurando pelo não dito, que permeia o texto, escondendo-se nas entrelinhas e frestas do reboco antigo.

Aos poucos, emerge, entre tantas informações, uma história pessoal que supera em muito a de sua casa. Ao contrário das demais, esta tem revelado o caminho percorrido por sua moradora solitária, enlouquecida e muito triste, que passou anos e anos confinada aos limites de seu palacete.

A casa, localizada na Rua Major Diogo, chegou às mãos do governo e hoje abriga o Centro de Preservação e Cultura da USP, paradoxalmente servindo à comunidade, depois de ser a gaiola de ouro de alguém.

Sebastiana de Melo Freire, conhecida como Yayá, nascida em “berço esplêndido”, é vítima de uma série de perdas, incluindo a de duas irmãs, em situações diversas, perda essa seguida pela dos pais, com uma diferença de dois dias. Restou-lhe apenas o irmão, de dezessete anos, chamado Manuel. Ela estudava no Sion, tinha amigas, adorava viajar, era amante de fotografia e levava uma vida normal, dentro das possibilidades extraordinárias que tinha, descartando-se a dor provocada pela saudade dos que partiram. Morava com o irmão e tinha a tutela de Albuquerque Lins, um importante político paulista. Em uma viagem de navio a Buenos Ayres, o irmão enlouquece e, depois de um acesso, ao primeiro descuido do pessoal de bordo, atira-se ao mar, pondo um fim à própria vida e deixando a garota completamente sozinha.

Sim, a pobre se viu só no mundo, cercada de luxo e riquezas que de nada lhe valiam. É assim que enlouquece aos trinta e quatro anos, no início da década de 1920. É sabido que a psiquiatria engatinhava, naquele tempo, e muito pouco se pôde fazer, então. O melhor médico, talvez do Brasil, alimentou a idéia que veio a confiná-la em meio à pujança, sem que dela pudesse usufruir nem ao menos um pouco. A casa da Bela Vista foi comprada, então, e adaptada para ser o sanatório de uma única paciente. A janela do cômodo em que ela ficava foi reduzida ao mínimo, de maneira que passasse água e comida, e só podia ser aberta pelo lado de fora. As torneiras de seu banheiro foram retiradas, para que não se ferisse. As paredes foram pintadas, a fim de facilitar a limpeza. A doença tornara Yayá violenta, fazendo com que tentasse o suicídio e batesse com a cabeça contra as paredes, gritasse impropérios e ficasse totalmente irreconhecível. Por esse motivo, não podia sair, literalmente alienada da sociedade. Moravam com ela vários empregados, encarregados de manter a casa, enfermeiras que se revezavam em seus cuidados e uma amiga querida.

Ao se perder tudo quanto se preza, não são poucos os casos em que a loucura passa a ser o único caminho possível. Yayá foi definhando, devorada pela doença implacável. Morreu em 1961, no Hospital São Camilo, aos setenta e quatro anos, quarenta dos quais vividos entre quatro paredes, com poucas saídas para um solarium. Não havia parentes para chorarem sua morte, nem mesmo os distantes, que passaram a vida esperando por sua herança, mas se foram primeiro. Acaba ali uma vida inexplicável, se por meios materialistas, antagonicamente proprietária de uma fortuna imensa que lhe garantiu apenas o isolamento e a espera quase interminável pela morte que, enfim, lhe trouxe o alívio.

Todos os seus bens, que eram muitos, foram considerados vacantes e passaram para as mãos da USP, que acertadamente os destinou aos mais variados propósitos, todos voltados para os alunos e para a comunidade de maneira geral. A Casa da Rua Major Diogo foi restaurada, tendo sido descobertos os afrescos que foram escondidos pela tinta lavável. Foi desvendada a história da construção, por meio das marcas deixadas durante ampliações sucessivas, em tempos anteriores a Yayá. Foi possível traçar uma linha do tempo, listando os vários proprietários, trazendo luz ao que nebuloso permanecia, transformando tudo em história e deixando descansar em paz aquela que paz não tinha.

A cada camada de tinta removida, apagavam-se as marcas deixadas pela estada de Yayá sobre terras paulistanas. Ninguém, porém, passa por este mundo sem que o modifique de alguma forma, quer seja por um sorriso generoso, por um gesto de amor, pela amizade oferecida, pela presença muda e constante, pela aceitação do outro, pelo costume de perdoar ou tolerar, ou mesmo por um legado inconsciente, materializado em uma fortuna imensa, deixada por alguém cuja mente se quedou indelevelmente incurável.

A casa é aberta à visitação pública durante alguns dias da semana. Dizem que, ao adentrarmos pela porta principal, podemos sentir a amargura e a tristeza, que serão eternas nesta casa cuja história se confunde com a tragédia vivida por Dona Yayá.

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Acomodados no sofá

Nas tardes de verão em São Paulo, todas as faces cansadas se encontram como vissem a si próprias refletidas nas faces dos outros. Todos se assemelham em suas angústias causadas, entre outras coisas, pela dificuldade imensa que encontram ao se deslocarem de casa ao trabalho e vice-versa. O sol escaldante na cidade da garoa torna-se um paradoxo, mediante a fama internacional da megalópole que pode abrigar várias estações em um só dia.

Todos, com bem poucas exceções, saem de casa com mochilas enormes, contendo o material necessário para o trabalho, um lanche reforçado e agasalhos leves, além de guarda-chuvas e outros badulaques aparentemente primordiais para o dia fora de casa. Tudo pode acontecer, em matéria de clima.

Há os que não se importam e saem de mãos vazias, prestando atenção ao entorno e despreocupados, vivendo o momento e sós.

Alguns viajam horas até o trabalho, trocando de ônibus várias vezes, ou revezando o meio de transporte, dos próprios pés aos trens e aos ônibus circulares. Mas há aqueles que do trabalho são vizinhos, praticamente, se considerarmos as distâncias vencidas pela maioria. Uma condução apenas e chegam ao destino.

Em minha rua há alguém que escolheu seu endereço, montando a casa em frente à minha, mais perto do trabalho do que qualquer conhecido. Desconheço seu nome e sua voz, mas observo essa figura tão estranha, como quem quer entender algo inexplicável. Ele é baixo e acima do peso, de cabelos escuros, crespos, volumosos e longos, divididos ao meio, como um guru de Woodstock, ou um ogro de desenho. Como se usasse uma máscara permanente, fecha o cenho e dirige o olhar para a frente, sempre, como se ali houvesse um vazio, mantendo o olhar firme, mas certamente perdido, ignorando o mundo habitado por gente. A boca cerrada, como uma estátua de pedra guardando um segredo antigo, não diz palavra. Olha, apenas. Usa chinelos, veste bermudas surradas e busca trabalho no lixo separado por espécie: plástico, vidro ou papel. Em minha rua isso existe. Anda de bicicleta e é intrigante quando pedala, lembrando um urso de circo sobre o selim estreito, deixando a grande pança à mostra, destituída de camiseta. Toma sol, coisa para poucos por aqui, apesar do calor estafante.

Sua mudança veio em um carrinho, tendo tudo de que precisa.  Mora neste bairro, revezando o sítio conforme as condições do momento. Escolhe o local em que obras estão em andamento, casas destinadas ao aluguel, mas ainda desocupadas, que, no mínimo, ofereçam um beiral ou árvore grande, para sustentar sua tenda feita com metros de plástico reforçado, cobrindo o colchão surrado que veio com a tralha toda. Água corrente também deve ter, uma torneira ou apenas um ponto do qual possa fazer uso, banhando-se com um balde, esfregando os cabelos com shampoo ali mesmo na rua, e também um ponto elétrico, para fazer um gato, afinal, sem luz para a leitura e para televisão, a vida ficaria insuportável. Pela manhã, acorda e faz a faxina, dobrando o seu telhado e arrumando tudo sem deixar nada à mostra. Toma sua condução e segue por algum caminho imaginário enquanto pedala com vigor.

À noite podemos ver sua imagem difusa através do plástico translúcido, recostado à mureta, como fosse a cabeceira da cama, assistindo TV ou lendo algo de teor desconhecido, sob uma luz opaca, mas visível. Ninguém o rouba, e ele também não teme. Não há uma mesa para os livros, mas ele os tem e lê. Cozinha também não há, mas come e dorme, sei lá como, nessas condições.

Quando algo o importuna, quer seja o proprietário por direito, ou um pretendente ao aluguel, ele enrola o colchão, embala os pertences e segue seu rumo, em duas viagens, uma a pé, levando o carrinho, e outra, em seguida, sobre a bicicleta, pedalando. Resumira seu mundo assim.

Volta e meia vejo essa pessoa por aí, vizinho de alguém em nosso bairro, igualmente intrigando outras pessoas que o olham com cara de interrogação, para a qual ele não tem a resposta, nem muito menos nós, que colocamos de volta a mente nos trilhos e as mãos em nossas tarefas cotidianas, tirando pó dos móveis, lavando a louça, pagando contas, escrevendo contos e, finalmente, ajeitando as almofadas no canto do sofá para mais um Jornal Nacional sangrento, premeditado e religiosamente constante.

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Enchente

Nuvens adensadas prenunciam a tarde de aguaceiro. “Do alto de minha janela”, vejo a escuridão baixando e oprimindo a todos nós que não nos acostumamos com o desconforto causado pela chuva na cidade que engole gente. Subitamente, a correria se inicia e o buzinaço toma conta das ruas. Sirenes da polícia e ambulâncias desesperadas avolumam-se, ensurdecendo quem ainda ouve. As motos, cada vez mais numerosas, descem a avenida em bandos, fazendo estardalhaço. Todos têm pressa de chegar!
A chuva despenca sem dó nem piedade, atingindo os passantes e acuando os desprevenidos, que se apertam sob a cobertura do ponto de ônibus, muito pequeno para tanta gente. O nervosismo geral é sentido mesmo por esta que observa à distância, sem nada poder fazer a não ser torcer para que a chuvarada seja breve.
Mas qual! O céu ruge e lança granizo, raios e muita água. A avenida vira um rio caudaloso, apavorando os motoristas já impossibilitados de movimentar seus carros. A água sobe e mil maneiras são pensadas para escapar, mas o trânsito, há muito complicado, encarcera os carros e seus ocupantes, invariavelmente reféns das enchentes. Alguns conseguem converter à direita, mas são surpreendidos por outra enxurrada alta, afogando vários carros que jazem em muda fila, quase boiando. O desalento dos ocupantes é de entristecer qualquer um. Que prejuízo!
Os motoqueiros, acostumados a correr perigo diariamente, aproveitam o momento para surfar, ruidosamente, em bandos, em direção à Avenida Faria Lima. Estes ainda conseguem se divertir, gritando e acelerando mais do que o necessário, completando o caos que se instala.
O cruzamento de duas avenidas, visível de minha janela, perde suas características normais e se transforma em um encontro de águas imundas, perigoso e traiçoeiro, cujas águas arrastariam alguém que tivesse a infelicidade de resvalar e cair, tamanha a força da correnteza. É de arrepiar!
A chuva forte mantém-se por um bom tempo, mas, a certa altura, as nuvens retiram-se aos poucos e a água abaixa, deixando para trás muito lixo carregado pela enxurrada, veículos fora de ação e pedestres encharcados, mas com muita vontade de chegar em casa.
Assisto à retirada dos carros avariados, ao trabalho dos guardas de trânsito, frente aos semáforos desligados, e ao desespero de todos para saírem dali. Não há feridos, apenas transtornados.
Esse quadro se repete sempre que São Pedro exagera na dose. Provavelmente, os culpados somos nós mesmos, seres urbanos e descomprometidos com o progresso ordenado das cidades. Enclausuramos rios, mudamos seus cursos, cobrimos a terra, tampamos as saídas, desafiamos a natureza e pagamos caro, muito caro por isso!
Hoje, felizmente, a notícia se atém a danos materiais de pequena monta, mas amanhã, quem dirá? Teremos a mesma sorte de permanecermos em casa em horas de chover? E as pessoas que moram distantes? E as crianças em horário de voltar para casa?
São tantas e tão complexas as situações, que por um momento imaginamos não haver soluções, contrariando uma tendência natural do ser humano, de sempre procurar uma saída!
A brisa fresca começa a soprar levemente e abro a vidraça, agradecendo pela chuva, pela brevidade dela e pela vida abundante que se avista daqui, apesar da tempestade a causar confusão e medo em todos nós, nesta tarde, em Sampa.

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Enxurrada

Era então uma mendiga e impressionava muito! Algo em seu porte desafiava o raciocínio, levando a imaginação a delirar procurando respostas.

De cabelos muito claros, louros, olhos azuis, magra, mas sem aparentar desnutrição, apesar da mendicância. Usava saia azul e blusa vermelha, ambas muito desbotadas, que expunham incrível sensação de limpeza. O nariz bem desenhado tinha certo ar de altivez, como se algo neste mundo lhe pertencesse por direito. Talvez apenas a vida, e nem mesmo disso ela tomara posse, mais preocupada em demarcar seu território em uma esquina movimentada.

Parecia esperar que algo acontecesse, demonstrando preocupação enquanto olhava a sarjeta. O que seria? Era de fato intrigante e parei, a prestar atenção nesta figura que, aos olhos incautos, nada revelava.

De repente, uma fina enxurrada começou a escorrer aos seus pés, vinda de algum quintal ou piscina, ou mesmo de algum prédio próximo que passava pela faxina diária. Ela então se apressou a tirar roupas da sacola que jazia encostada ao poste, e sem a menor cerimônia agachou e começou a lavá-las, aproveitando a oportunidade que as circunstâncias lhe deram.

Imaginem, em uma esquina movimentada da cidade de São Paulo, como se fosse dela!

Por algum motivo a água deixou de escorrer, mas já a roupa estava ensaboada. Então ela se pôs a ler uma folha de jornal que trazia dobrada entre seus pertences. O papel já estava amarelado e as bordas carcomidas pelo tempo. Colocou-se como estátua a vigiar sua roupa, dedicando-se à leitura, interessadíssima na notícia já tantas vezes lida. Não se importava com a edição muito atrasada, nem com os textos escritos nela. O mundo e a vida, para ela, têm um sabor atemporal e incerto, mas busca certezas em coisas tão básicas que até arrepia. Terá encontrado?

Magicamente a enxurrada começa a escorrer do outro lado da rua. Toma então os trapos com cuidado e atravessa, procurando um local onde a água empoçasse um pouco para facilitar o trabalho.

Fiquei realmente tocada com esta figura que faz questão de estar limpa e, em condições subumanas, consegue ser criativa, mesmo que de forma pouco higiênica. Que paradoxo!

O que terá acontecido com esta que se acotovela entre tantos e tantos desvalidos pela sorte? De onde terá vindo e por quê? Quem serão seus pais e filhos? Teria ela amado e sido amada? Seria a sobra de algo que morreu? Se tivesse tido uma chance, antes de perder as referências, tudo seria diferente!

Cessa a enxurrada e o trabalho chegou ao fim. Improvisar um varal é fácil para ela, que não reconhece mais a propriedade e nem se dá conta de que invade os limites de alguém. Adentra o jardim do pequeno hotel da esquina e expõe a roupa ao sol, contente, mostrando ao mundo que a vida continua de qualquer forma, com ou sem abrigo, apesar dos perigos, aquém do abandono, além do suportável, num canto imprevisível deste mundão sem fim.

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