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Enchente

Nuvens adensadas prenunciam a tarde de aguaceiro. “Do alto de minha janela”, vejo a escuridão baixando e oprimindo a todos nós que não nos acostumamos com o desconforto causado pela chuva na cidade que engole gente. Subitamente, a correria se inicia e o buzinaço toma conta das ruas. Sirenes da polícia e ambulâncias desesperadas avolumam-se, ensurdecendo quem ainda ouve. As motos, cada vez mais numerosas, descem a avenida em bandos, fazendo estardalhaço. Todos têm pressa de chegar!
A chuva despenca sem dó nem piedade, atingindo os passantes e acuando os desprevenidos, que se apertam sob a cobertura do ponto de ônibus, muito pequeno para tanta gente. O nervosismo geral é sentido mesmo por esta que observa à distância, sem nada poder fazer a não ser torcer para que a chuvarada seja breve.
Mas qual! O céu ruge e lança granizo, raios e muita água. A avenida vira um rio caudaloso, apavorando os motoristas já impossibilitados de movimentar seus carros. A água sobe e mil maneiras são pensadas para escapar, mas o trânsito, há muito complicado, encarcera os carros e seus ocupantes, invariavelmente reféns das enchentes. Alguns conseguem converter à direita, mas são surpreendidos por outra enxurrada alta, afogando vários carros que jazem em muda fila, quase boiando. O desalento dos ocupantes é de entristecer qualquer um. Que prejuízo!
Os motoqueiros, acostumados a correr perigo diariamente, aproveitam o momento para surfar, ruidosamente, em bandos, em direção à Avenida Faria Lima. Estes ainda conseguem se divertir, gritando e acelerando mais do que o necessário, completando o caos que se instala.
O cruzamento de duas avenidas, visível de minha janela, perde suas características normais e se transforma em um encontro de águas imundas, perigoso e traiçoeiro, cujas águas arrastariam alguém que tivesse a infelicidade de resvalar e cair, tamanha a força da correnteza. É de arrepiar!
A chuva forte mantém-se por um bom tempo, mas, a certa altura, as nuvens retiram-se aos poucos e a água abaixa, deixando para trás muito lixo carregado pela enxurrada, veículos fora de ação e pedestres encharcados, mas com muita vontade de chegar em casa.
Assisto à retirada dos carros avariados, ao trabalho dos guardas de trânsito, frente aos semáforos desligados, e ao desespero de todos para saírem dali. Não há feridos, apenas transtornados.
Esse quadro se repete sempre que São Pedro exagera na dose. Provavelmente, os culpados somos nós mesmos, seres urbanos e descomprometidos com o progresso ordenado das cidades. Enclausuramos rios, mudamos seus cursos, cobrimos a terra, tampamos as saídas, desafiamos a natureza e pagamos caro, muito caro por isso!
Hoje, felizmente, a notícia se atém a danos materiais de pequena monta, mas amanhã, quem dirá? Teremos a mesma sorte de permanecermos em casa em horas de chover? E as pessoas que moram distantes? E as crianças em horário de voltar para casa?
São tantas e tão complexas as situações, que por um momento imaginamos não haver soluções, contrariando uma tendência natural do ser humano, de sempre procurar uma saída!
A brisa fresca começa a soprar levemente e abro a vidraça, agradecendo pela chuva, pela brevidade dela e pela vida abundante que se avista daqui, apesar da tempestade a causar confusão e medo em todos nós, nesta tarde, em Sampa.

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