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Vida

Às vezes, sem esforço algum, por uma fração de segundo, fica evidente para nós de onde viemos, que rumo tomamos ou porque seguimos. Foi o que aconteceu comigo há alguns dias: ao receber uma bela mensagem por email, identifiquei imediatamente os alicerces do meu próprio modo de sentir, pensar e expor as ideias. O texto abaixo é uma reflexão sobre o mais comum dos temas, preocupação do ser humano desde sempre, ou seja, a própria Vida, tema este tratado pelo autor com a mais natural profundidade literária, marcada por personificações em letras maiúsculas, denotando o respeito pela vida, pelo texto e pela criação, em todos os sentidos possíveis, e deixando espaço para a reflexão do leitor, que pode ou não concordar com o conteúdo escrito no ano de 1998, completando mentalmente as lacunas deixadas em reticências.

Papai, obrigada pela contribuição. Abaixo, segue o seu texto:

VIDA (por Edemar Paulo Gonçalves)

Cavalgar nas nuvens do Pensamento deixando a mente solta nos desvãos do Tempo.

Descansar no banco da Saudade: reviver os bons momentos, as pessoas amadas – flores no caminho da vida.

O Passado gravado na pedra da Eternidade, imutável, esmaecendo-se no pó do esquecimento. Baú de esperanças perdidas, sonhos desfeitos, lutas inglórias entre pequenas alegrias. Atos feitos, atos falhos.

Conversar com o Presente, de homem para homem, plantando o Futuro.

Futuro adubado com novas esperanças, novos sonhos, visões de duras refregas, visões de novos sorrisos.

O corpo se abate, a alma respira novos ares. O tropeço é o começo de um novo levantar.

A Vida continua com seu insondável Amanhã.

Amanhã…

Quando e onde será…

Outros afazeres?!…

Outras plagas?!…

Outros mundos?…

Quem poderá dizer se, na verdade, a vida não é somente o átimo de tempo em que estamos.

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Balas de coco

Passaram-se já tantos anos, mas parece que tempo não há.

Foram tantas as tardes de janeiro a jogar conversa fora, no colo, ao seu lado, pendurada em sua saia, ou simplesmente parada, curiosa, perguntando coisas, imaginando outras e compartilhando tudo! E para tudo havia respostas, soluções ou uma brincadeira gostosa, sem medo, simples, sincera, inesquecível!

Os ares mornos dos tempos de criança se instalam na gente para sempre, quem sabe para voltarmos até lá de vez em quando, em busca de equilíbrio e de renovar as energias perdidas nesta vida de gente grande, moradores que somos desta cidade que engole gente. Tudo se solta, então, agregando paz, liberdade e emoção ao dia a dia.

Aqueles tempos, quando a mesa da cozinha alinhava-se pouco abaixo do meu olhar de menina, vivemos dias verdadeiramente especiais, recheados de brincadeiras simples e presenciando as delícias que brotavam das mãos dela. Que sensação de bem estar me trazem essas lembranças!

Minha avó era uma mulher pequena, amorosa e altamente generosa, como poucas pessoas deste mundo. Filha de espanhóis, de quem herdou o ar sincero e o olhar franco e firme a encarar as pessoas por pura simpatia. Gostava de conversas sobre os antepassados e as viagens que um dia fizeram, vindos de navio de uma ilha distante. Sobre esse assunto sabia detalhes sutis, meio mágicos, e os repetia para mim, que respirava devagar para não perder sequer uma vírgula da história. Era tão bom ouvi-la! Amava a leitura e a poesia, plantando uma semente boa na alma desta que recorda e escreve agora.

Era ótima cozinheira, deixando que seu talento a levasse, seduzida pelos cheiros de temperos e de guloseimas tantas! Sopas, caldos e doces; bolinhos, licores e tortas de toda sorte.

Sovava a massa do pão contando como o fazia a mãe, repetindo o gesto, de punhos fechados, sem perceber que há muito copiava o jeito dela, reproduzindo a maneira espanhola de fazê-lo. Entre todas as verdadeiras dádivas, tinha uma especialidade que a tornou única, inigualável: fazia as melhores balas de coco do planeta. Mas isso devo contar tim-tim por tim-tim.

Não sei sua receita, acho até que não a tinha. Sempre penso que do alto descia uma fina luz cintilante que a inspirava e tudo saía, sempre, pra lá de bom.

Para as balas, leite de coco e açúcar, certamente. As quantidades, porém, não sei. Colocava-os na panela, fogo brando e nada de mexer, “açucara”, dizia. O cheiro era de arrasar e a cozinha ficava cheia de crianças: eu, minhas irmãs, primos e primas. Como era bom! Olhava a mistura como quem toma conta de uma joia que se depura e encorpa, à mercê do fogo. Depois de certo tempo, chegava a hora de “controlar o ponto”, o que é de vital importância, determinando o sucesso da feitura. Colocava água fria em uma xícara, pingando de vez em quando uma porção do que viria a ser bala. Mergulhava os dedos na água, buscando agregar a mistura cremosa e macia. Muitas vezes, a bala se desmanchava, revelando o estado prematuro do puxa-puxa. Jogava a água fora, então, e enchia a xícara de novo, repetindo o gesto até que conseguisse uma bolinha ainda mole e pegajosa, no ponto! A criançada, a essa altura, não aguentava mais a espera. Tirava, então, uma porção para cada uma, antes da próxima etapa.

Sobre a pia de mármore, espalhava manteiga e despejava a bala toda, que fumegava e brilhava, sob os raios de sol que entravam pela fresta da janela, espalhando-se lentamente pela superfície da pedra fria.

Ai, que cheiro bom! Que saudades da vovó!

A bala ainda não trabalhada era fina, brilhante e lisa, amalgamada em branco amarelado. Havia de esfriar para que se pudesse pegá-la, a fim de terminar o intento. Tirava, para isso, tudo de sobre a mesa, limpando-a com um pano úmido, apressadamente; nela seria colocada a bala, antes do corte. Quando a massa esfriava um pouco, chegava o melhor momento, ao menos para nós que assistíamos e pululávamos à sua volta. Com grande destreza, própria de quem estava acostumada ao calor das panelas, tomava em suas mãos a bala ainda morna, esticando-a e juntando novamente as pontas, muitas vezes, até que a cor se transformava, tendendo para o branco cintilante como a pérola. Era um momento crucial! A bala, então, deveria ser esticada bem depressa, dando voltas sobre o tampo verde, como uma cobra enorme enredada na mata!

Nós roubávamos pedacinhos, adoçando a boca, enquanto a tarefa era finalizada com muita concentração, rapidamente, antes que a bala secasse e fosse impossível o seu corte. Suas mãos calejadas pelo trabalho que amava, torciam e puxavam a massa para que as balas ficassem finas e resultassem pequenas no final.

A tesoura, previamente preparada, agora nas mãos da vovó, executava a última tarefa, cortando sem perda de tempo a bala alongada, fazendo pular as balinhas e transformando a mesa em uma festa!

As balas, já frias, completavam a mágica da transformação cromática, finalmente brancas como algodão, brancas como são balas de coco, como a luz que se foi, mas que nunca se apagou.

Há coisas que vivemos, pessoas que amamos, momentos que foram anos e anos a se esperar. Há tempo que se conta e tempo a se demorar, mas todo esse mundo na alma, o riso na face, o doce na boca, o simples pensar, transpiram vida onde já não há; e mesmo que o tempo passe e faça tudo se acabar, o bom da vida fica comigo, e fica para me acalentar.

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