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Músicas e músicos

A música enche as noites de Sampa!

Espalhados por toda a cidade, os bares, pubs, restaurantes e todo tipo de casas noturnas presenteiam os habitués com ela, a música, personificada pelas mãos dos artistas da noite. Desconhecidos da maioria chegam carregados de cases, maletas, fios e baquetas, violões, guitarras, baterias e vozes. Marcam com seu desempenho a casa em que tocam, emprestando ao lugar a personalidade da música que produzem. Sambas, baladas, rock maduro, salsa, merengue, blues e metal. A cidade generosa abraça essa fauna e a sorve em grandes goles, como remédio para qualquer cura.

Há virtuoses que nunca tiveram maior chance, ou talvez nem a queiram, enlevados pelo som que tiram de seus instrumentos em conjunto, entrando em verdadeiro transe enquanto solam e se entregam ao ato de tocar, como se estivessem sós, em algum canto isolado deste mundo. Vibram as mãos e o corpo inteiro, eletrificado como o violão de sete cordas que dá o tom, mas deixa-se levar, entregue aos devaneios de quem o tange. O prazer degustado é impagável, insubstituível, inenarrável! Percebe-se o raro equilíbrio do ser, a transcendência ao mundo visível em prol do absoluto, do perfeito, do insuperável.

E mesmo os que desprezam a fama dobram-se, tímidos, sobre o ventre, em reverência ao público que os ouve e aplaude, reconhecendo-se como detentores de algo divino e sensacional como intérpretes desse mundo louco, capazes de entreter as mentes dos que os assistem, devolvendo um pouco da luz que se perdeu nas situações do cotidiano.

Volta e meia aparecem os mais excêntricos, libertos das obrigações do dia a dia, escancarando a face mais expressiva de si, solta na madrugada na cidade. Cabelos imensos trançados ou enrolados, grandes gorros coloridos, anéis em profusão, há tantas versões a se ver e encontrar por aí!

Encontrei um assim, em uma noite de sexta-feira, enquanto ouvia música em uma esquina especial da cidade. Ele vinha envolto em uma nuvem de misteriosa fantasia, trajado como um indiano de mosteiro. Vestia bata branca de algodão, calças de boca larga, sapatilhas indianas e o pensamento também. Saíra do túnel do tempo, certamente passando por algum portal indefinido, mas voltara envelhecido, não mais aos dezesseis. Era moreno, cabelos grisalhos e semilongos, que o colocavam em uma esfera qualquer, diferente da massa que povoava o bar. Um pequeno séquito de seguidores enrolava-se à sua volta, chamando a atenção das pessoas que se divertiam, mais pela presença inusitada e teatral do que por outro motivo qualquer. O místico desconhecido empombava-se, olhando lateralmente para todos, derramando sua superioridade presumida, enquanto passava, certo de estar sendo recebido como um ilustre personagem de algum conto asiático ao adentrar um palácio de desenho animado. Faltavam almofadas de lamé, luzes dirigidas, tapetes vermelhos, fila de fãs a pedirem autógrafos, mas, mesmo assim, a face enrugada nem tentou esconder sua postura anos-luz acima dos simples mortais que ali se aglomeravam escutando um blues.

As pessoas do lugar curtiam a música que tocava, fazendo um coro suave quando se lembravam da letra, encorpando a energia boa de lá. Alguém, então, resolveu apresentar o ilustre visitante aos clientes da casa, trazendo-o, de seu confortável banquinho, evidentemente contrariado. Em meio ao burburinho acrescentado de violões e vozes, ninguém entendeu seu nome. “Este é M@c*v#k, o maior tocador de R&n*d@k do Brasil!”. Eu e meus vizinhos de mesa, com cara de pergunta, educadamente nos apresentamos: “muito prazer, eu sou Fulano de Tal”, ao que ele respondia, todas as vezes: “muito prazer, Não Sei Quem Sou”.

Vejam vocês, não entendemos quem ele era e nem ele parecia saber, mais preocupado em bancar o músico enfadado com o assédio de supostos fãs, sem se dar conta de que estávamos ali pelo blues bem tocado e para celebrarmos o final bem cumprido de uma semana tensa, apesar do estrelismo evidente e totalmente fora de hora! Que pobreza!

Passado o turbilhão ridículo, voltamos nossos olhos e ouvidos ao blues honesto, trazido pela voz anasalada do cantor e concretizado pelas mãos dos músicos senhores da noite, dessa noite e de tantas que ainda virão. Cantarolamos os refrões e deixamos os corpos à deriva, balançando levemente, embalando nossas almas ao som dos acordes marcantes e conhecidos, retomando o leme da vida real e verdadeiramente simples como um blues bem levado, apagando dessa noite, e talvez para sempre, o sr. Não Sei Quem Sou e sua comitiva de sombras sem nome, fora de lugar e evidentemente equivocados.

A música chega ao fim e as vozes abafadas por ela tomam conta do ambiente, enchendo o ar de risos e palavras de alegria. Os instrumentos voltam para suas caixas e dormem em paz. As pessoas se acotovelam no corredor, alongando a fila do caixa, que trabalha mais quando a música cessa, demonstrando claramente que Ela é quem traz grande parte da plateia. Volto também para casa ainda mais feliz, por saber profunda e sinceramente meu nome, meu canto e meu Senhor.

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Enchente

Nuvens adensadas prenunciam a tarde de aguaceiro. “Do alto de minha janela”, vejo a escuridão baixando e oprimindo a todos nós que não nos acostumamos com o desconforto causado pela chuva na cidade que engole gente. Subitamente, a correria se inicia e o buzinaço toma conta das ruas. Sirenes da polícia e ambulâncias desesperadas avolumam-se, ensurdecendo quem ainda ouve. As motos, cada vez mais numerosas, descem a avenida em bandos, fazendo estardalhaço. Todos têm pressa de chegar!
A chuva despenca sem dó nem piedade, atingindo os passantes e acuando os desprevenidos, que se apertam sob a cobertura do ponto de ônibus, muito pequeno para tanta gente. O nervosismo geral é sentido mesmo por esta que observa à distância, sem nada poder fazer a não ser torcer para que a chuvarada seja breve.
Mas qual! O céu ruge e lança granizo, raios e muita água. A avenida vira um rio caudaloso, apavorando os motoristas já impossibilitados de movimentar seus carros. A água sobe e mil maneiras são pensadas para escapar, mas o trânsito, há muito complicado, encarcera os carros e seus ocupantes, invariavelmente reféns das enchentes. Alguns conseguem converter à direita, mas são surpreendidos por outra enxurrada alta, afogando vários carros que jazem em muda fila, quase boiando. O desalento dos ocupantes é de entristecer qualquer um. Que prejuízo!
Os motoqueiros, acostumados a correr perigo diariamente, aproveitam o momento para surfar, ruidosamente, em bandos, em direção à Avenida Faria Lima. Estes ainda conseguem se divertir, gritando e acelerando mais do que o necessário, completando o caos que se instala.
O cruzamento de duas avenidas, visível de minha janela, perde suas características normais e se transforma em um encontro de águas imundas, perigoso e traiçoeiro, cujas águas arrastariam alguém que tivesse a infelicidade de resvalar e cair, tamanha a força da correnteza. É de arrepiar!
A chuva forte mantém-se por um bom tempo, mas, a certa altura, as nuvens retiram-se aos poucos e a água abaixa, deixando para trás muito lixo carregado pela enxurrada, veículos fora de ação e pedestres encharcados, mas com muita vontade de chegar em casa.
Assisto à retirada dos carros avariados, ao trabalho dos guardas de trânsito, frente aos semáforos desligados, e ao desespero de todos para saírem dali. Não há feridos, apenas transtornados.
Esse quadro se repete sempre que São Pedro exagera na dose. Provavelmente, os culpados somos nós mesmos, seres urbanos e descomprometidos com o progresso ordenado das cidades. Enclausuramos rios, mudamos seus cursos, cobrimos a terra, tampamos as saídas, desafiamos a natureza e pagamos caro, muito caro por isso!
Hoje, felizmente, a notícia se atém a danos materiais de pequena monta, mas amanhã, quem dirá? Teremos a mesma sorte de permanecermos em casa em horas de chover? E as pessoas que moram distantes? E as crianças em horário de voltar para casa?
São tantas e tão complexas as situações, que por um momento imaginamos não haver soluções, contrariando uma tendência natural do ser humano, de sempre procurar uma saída!
A brisa fresca começa a soprar levemente e abro a vidraça, agradecendo pela chuva, pela brevidade dela e pela vida abundante que se avista daqui, apesar da tempestade a causar confusão e medo em todos nós, nesta tarde, em Sampa.

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