Músicas e músicos

A música enche as noites de Sampa!

Espalhados por toda a cidade, os bares, pubs, restaurantes e todo tipo de casas noturnas presenteiam os habitués com ela, a música, personificada pelas mãos dos artistas da noite. Desconhecidos da maioria chegam carregados de cases, maletas, fios e baquetas, violões, guitarras, baterias e vozes. Marcam com seu desempenho a casa em que tocam, emprestando ao lugar a personalidade da música que produzem. Sambas, baladas, rock maduro, salsa, merengue, blues e metal. A cidade generosa abraça essa fauna e a sorve em grandes goles, como remédio para qualquer cura.

Há virtuoses que nunca tiveram maior chance, ou talvez nem a queiram, enlevados pelo som que tiram de seus instrumentos em conjunto, entrando em verdadeiro transe enquanto solam e se entregam ao ato de tocar, como se estivessem sós, em algum canto isolado deste mundo. Vibram as mãos e o corpo inteiro, eletrificado como o violão de sete cordas que dá o tom, mas deixa-se levar, entregue aos devaneios de quem o tange. O prazer degustado é impagável, insubstituível, inenarrável! Percebe-se o raro equilíbrio do ser, a transcendência ao mundo visível em prol do absoluto, do perfeito, do insuperável.

E mesmo os que desprezam a fama dobram-se, tímidos, sobre o ventre, em reverência ao público que os ouve e aplaude, reconhecendo-se como detentores de algo divino e sensacional como intérpretes desse mundo louco, capazes de entreter as mentes dos que os assistem, devolvendo um pouco da luz que se perdeu nas situações do cotidiano.

Volta e meia aparecem os mais excêntricos, libertos das obrigações do dia a dia, escancarando a face mais expressiva de si, solta na madrugada na cidade. Cabelos imensos trançados ou enrolados, grandes gorros coloridos, anéis em profusão, há tantas versões a se ver e encontrar por aí!

Encontrei um assim, em uma noite de sexta-feira, enquanto ouvia música em uma esquina especial da cidade. Ele vinha envolto em uma nuvem de misteriosa fantasia, trajado como um indiano de mosteiro. Vestia bata branca de algodão, calças de boca larga, sapatilhas indianas e o pensamento também. Saíra do túnel do tempo, certamente passando por algum portal indefinido, mas voltara envelhecido, não mais aos dezesseis. Era moreno, cabelos grisalhos e semilongos, que o colocavam em uma esfera qualquer, diferente da massa que povoava o bar. Um pequeno séquito de seguidores enrolava-se à sua volta, chamando a atenção das pessoas que se divertiam, mais pela presença inusitada e teatral do que por outro motivo qualquer. O místico desconhecido empombava-se, olhando lateralmente para todos, derramando sua superioridade presumida, enquanto passava, certo de estar sendo recebido como um ilustre personagem de algum conto asiático ao adentrar um palácio de desenho animado. Faltavam almofadas de lamé, luzes dirigidas, tapetes vermelhos, fila de fãs a pedirem autógrafos, mas, mesmo assim, a face enrugada nem tentou esconder sua postura anos-luz acima dos simples mortais que ali se aglomeravam escutando um blues.

As pessoas do lugar curtiam a música que tocava, fazendo um coro suave quando se lembravam da letra, encorpando a energia boa de lá. Alguém, então, resolveu apresentar o ilustre visitante aos clientes da casa, trazendo-o, de seu confortável banquinho, evidentemente contrariado. Em meio ao burburinho acrescentado de violões e vozes, ninguém entendeu seu nome. “Este é M@c*v#k, o maior tocador de R&n*d@k do Brasil!”. Eu e meus vizinhos de mesa, com cara de pergunta, educadamente nos apresentamos: “muito prazer, eu sou Fulano de Tal”, ao que ele respondia, todas as vezes: “muito prazer, Não Sei Quem Sou”.

Vejam vocês, não entendemos quem ele era e nem ele parecia saber, mais preocupado em bancar o músico enfadado com o assédio de supostos fãs, sem se dar conta de que estávamos ali pelo blues bem tocado e para celebrarmos o final bem cumprido de uma semana tensa, apesar do estrelismo evidente e totalmente fora de hora! Que pobreza!

Passado o turbilhão ridículo, voltamos nossos olhos e ouvidos ao blues honesto, trazido pela voz anasalada do cantor e concretizado pelas mãos dos músicos senhores da noite, dessa noite e de tantas que ainda virão. Cantarolamos os refrões e deixamos os corpos à deriva, balançando levemente, embalando nossas almas ao som dos acordes marcantes e conhecidos, retomando o leme da vida real e verdadeiramente simples como um blues bem levado, apagando dessa noite, e talvez para sempre, o sr. Não Sei Quem Sou e sua comitiva de sombras sem nome, fora de lugar e evidentemente equivocados.

A música chega ao fim e as vozes abafadas por ela tomam conta do ambiente, enchendo o ar de risos e palavras de alegria. Os instrumentos voltam para suas caixas e dormem em paz. As pessoas se acotovelam no corredor, alongando a fila do caixa, que trabalha mais quando a música cessa, demonstrando claramente que Ela é quem traz grande parte da plateia. Volto também para casa ainda mais feliz, por saber profunda e sinceramente meu nome, meu canto e meu Senhor.

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A vida e a casa (A história de Yayá)

Hoje estive entre ruínas, buscando mais sobre a história da cidade ou, melhor dizendo, sobre a de seus moradores, muito mais do que sobre as casas, mansões, casarões e palacetes que, teimosamente, sobrevivem até o início deste século XXI. Estas representam um sem-número de construções que denotam, por suas cicatrizes, as agruras que viveram. Muitas não suportaram o peso dos anos, a pressão dos tempos, a força devastadora do poder econômico, sucumbindo em noites de lua cheia, logo após o estampido da bomba detonada em seus alicerces.

Se acaso se quiser saber a respeito da história desses edifícios, há órgãos governamentais que se esmeram em arquivar projetos antigos, fotos amareladas clicadas de ângulos diferentes, cópias de escrituras de compra e venda, além de originais de tombamento e desapropriações, estas últimas contribuindo, certamente, para arruinar também os proprietários, muitas vezes no limite da derrocada na década de 70. A partir desses dados e, muitas vezes, de uma visita ao local, pode-se delinear uma trajetória muito precisa do edifício em questão. Porém, o que dizer de seus ocupantes, protagonistas de um momento glamoroso da cidade? Alguns sites da rede apresentam imagens belíssimas, que se limitam ao circunscrito no âmbito da arquitetura. Esboçam alguns traços sobre os proprietários, ainda que tímidos e cheios de recato, como se as casas guardassem segredos que, bem por isso, aguçam a curiosidade de quem lê, fazendo a imaginação flutuar como um balão de gás sobrevoando o espigão da Paulista. Certamente coloco-me em meio a esse tipo de leitor curioso, procurando pelo não dito, que permeia o texto, escondendo-se nas entrelinhas e frestas do reboco antigo.

Aos poucos, emerge, entre tantas informações, uma história pessoal que supera em muito a de sua casa. Ao contrário das demais, esta tem revelado o caminho percorrido por sua moradora solitária, enlouquecida e muito triste, que passou anos e anos confinada aos limites de seu palacete.

A casa, localizada na Rua Major Diogo, chegou às mãos do governo e hoje abriga o Centro de Preservação e Cultura da USP, paradoxalmente servindo à comunidade, depois de ser a gaiola de ouro de alguém.

Sebastiana de Melo Freire, conhecida como Yayá, nascida em “berço esplêndido”, é vítima de uma série de perdas, incluindo a de duas irmãs, em situações diversas, perda essa seguida pela dos pais, com uma diferença de dois dias. Restou-lhe apenas o irmão, de dezessete anos, chamado Manuel. Ela estudava no Sion, tinha amigas, adorava viajar, era amante de fotografia e levava uma vida normal, dentro das possibilidades extraordinárias que tinha, descartando-se a dor provocada pela saudade dos que partiram. Morava com o irmão e tinha a tutela de Albuquerque Lins, um importante político paulista. Em uma viagem de navio a Buenos Ayres, o irmão enlouquece e, depois de um acesso, ao primeiro descuido do pessoal de bordo, atira-se ao mar, pondo um fim à própria vida e deixando a garota completamente sozinha.

Sim, a pobre se viu só no mundo, cercada de luxo e riquezas que de nada lhe valiam. É assim que enlouquece aos trinta e quatro anos, no início da década de 1920. É sabido que a psiquiatria engatinhava, naquele tempo, e muito pouco se pôde fazer, então. O melhor médico, talvez do Brasil, alimentou a idéia que veio a confiná-la em meio à pujança, sem que dela pudesse usufruir nem ao menos um pouco. A casa da Bela Vista foi comprada, então, e adaptada para ser o sanatório de uma única paciente. A janela do cômodo em que ela ficava foi reduzida ao mínimo, de maneira que passasse água e comida, e só podia ser aberta pelo lado de fora. As torneiras de seu banheiro foram retiradas, para que não se ferisse. As paredes foram pintadas, a fim de facilitar a limpeza. A doença tornara Yayá violenta, fazendo com que tentasse o suicídio e batesse com a cabeça contra as paredes, gritasse impropérios e ficasse totalmente irreconhecível. Por esse motivo, não podia sair, literalmente alienada da sociedade. Moravam com ela vários empregados, encarregados de manter a casa, enfermeiras que se revezavam em seus cuidados e uma amiga querida.

Ao se perder tudo quanto se preza, não são poucos os casos em que a loucura passa a ser o único caminho possível. Yayá foi definhando, devorada pela doença implacável. Morreu em 1961, no Hospital São Camilo, aos setenta e quatro anos, quarenta dos quais vividos entre quatro paredes, com poucas saídas para um solarium. Não havia parentes para chorarem sua morte, nem mesmo os distantes, que passaram a vida esperando por sua herança, mas se foram primeiro. Acaba ali uma vida inexplicável, se por meios materialistas, antagonicamente proprietária de uma fortuna imensa que lhe garantiu apenas o isolamento e a espera quase interminável pela morte que, enfim, lhe trouxe o alívio.

Todos os seus bens, que eram muitos, foram considerados vacantes e passaram para as mãos da USP, que acertadamente os destinou aos mais variados propósitos, todos voltados para os alunos e para a comunidade de maneira geral. A Casa da Rua Major Diogo foi restaurada, tendo sido descobertos os afrescos que foram escondidos pela tinta lavável. Foi desvendada a história da construção, por meio das marcas deixadas durante ampliações sucessivas, em tempos anteriores a Yayá. Foi possível traçar uma linha do tempo, listando os vários proprietários, trazendo luz ao que nebuloso permanecia, transformando tudo em história e deixando descansar em paz aquela que paz não tinha.

A cada camada de tinta removida, apagavam-se as marcas deixadas pela estada de Yayá sobre terras paulistanas. Ninguém, porém, passa por este mundo sem que o modifique de alguma forma, quer seja por um sorriso generoso, por um gesto de amor, pela amizade oferecida, pela presença muda e constante, pela aceitação do outro, pelo costume de perdoar ou tolerar, ou mesmo por um legado inconsciente, materializado em uma fortuna imensa, deixada por alguém cuja mente se quedou indelevelmente incurável.

A casa é aberta à visitação pública durante alguns dias da semana. Dizem que, ao adentrarmos pela porta principal, podemos sentir a amargura e a tristeza, que serão eternas nesta casa cuja história se confunde com a tragédia vivida por Dona Yayá.

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Balas de coco

Passaram-se já tantos anos, mas parece que tempo não há.

Foram tantas as tardes de janeiro a jogar conversa fora, no colo, ao seu lado, pendurada em sua saia, ou simplesmente parada, curiosa, perguntando coisas, imaginando outras e compartilhando tudo! E para tudo havia respostas, soluções ou uma brincadeira gostosa, sem medo, simples, sincera, inesquecível!

Os ares mornos dos tempos de criança se instalam na gente para sempre, quem sabe para voltarmos até lá de vez em quando, em busca de equilíbrio e de renovar as energias perdidas nesta vida de gente grande, moradores que somos desta cidade que engole gente. Tudo se solta, então, agregando paz, liberdade e emoção ao dia a dia.

Aqueles tempos, quando a mesa da cozinha alinhava-se pouco abaixo do meu olhar de menina, vivemos dias verdadeiramente especiais, recheados de brincadeiras simples e presenciando as delícias que brotavam das mãos dela. Que sensação de bem estar me trazem essas lembranças!

Minha avó era uma mulher pequena, amorosa e altamente generosa, como poucas pessoas deste mundo. Filha de espanhóis, de quem herdou o ar sincero e o olhar franco e firme a encarar as pessoas por pura simpatia. Gostava de conversas sobre os antepassados e as viagens que um dia fizeram, vindos de navio de uma ilha distante. Sobre esse assunto sabia detalhes sutis, meio mágicos, e os repetia para mim, que respirava devagar para não perder sequer uma vírgula da história. Era tão bom ouvi-la! Amava a leitura e a poesia, plantando uma semente boa na alma desta que recorda e escreve agora.

Era ótima cozinheira, deixando que seu talento a levasse, seduzida pelos cheiros de temperos e de guloseimas tantas! Sopas, caldos e doces; bolinhos, licores e tortas de toda sorte.

Sovava a massa do pão contando como o fazia a mãe, repetindo o gesto, de punhos fechados, sem perceber que há muito copiava o jeito dela, reproduzindo a maneira espanhola de fazê-lo. Entre todas as verdadeiras dádivas, tinha uma especialidade que a tornou única, inigualável: fazia as melhores balas de coco do planeta. Mas isso devo contar tim-tim por tim-tim.

Não sei sua receita, acho até que não a tinha. Sempre penso que do alto descia uma fina luz cintilante que a inspirava e tudo saía, sempre, pra lá de bom.

Para as balas, leite de coco e açúcar, certamente. As quantidades, porém, não sei. Colocava-os na panela, fogo brando e nada de mexer, “açucara”, dizia. O cheiro era de arrasar e a cozinha ficava cheia de crianças: eu, minhas irmãs, primos e primas. Como era bom! Olhava a mistura como quem toma conta de uma joia que se depura e encorpa, à mercê do fogo. Depois de certo tempo, chegava a hora de “controlar o ponto”, o que é de vital importância, determinando o sucesso da feitura. Colocava água fria em uma xícara, pingando de vez em quando uma porção do que viria a ser bala. Mergulhava os dedos na água, buscando agregar a mistura cremosa e macia. Muitas vezes, a bala se desmanchava, revelando o estado prematuro do puxa-puxa. Jogava a água fora, então, e enchia a xícara de novo, repetindo o gesto até que conseguisse uma bolinha ainda mole e pegajosa, no ponto! A criançada, a essa altura, não aguentava mais a espera. Tirava, então, uma porção para cada uma, antes da próxima etapa.

Sobre a pia de mármore, espalhava manteiga e despejava a bala toda, que fumegava e brilhava, sob os raios de sol que entravam pela fresta da janela, espalhando-se lentamente pela superfície da pedra fria.

Ai, que cheiro bom! Que saudades da vovó!

A bala ainda não trabalhada era fina, brilhante e lisa, amalgamada em branco amarelado. Havia de esfriar para que se pudesse pegá-la, a fim de terminar o intento. Tirava, para isso, tudo de sobre a mesa, limpando-a com um pano úmido, apressadamente; nela seria colocada a bala, antes do corte. Quando a massa esfriava um pouco, chegava o melhor momento, ao menos para nós que assistíamos e pululávamos à sua volta. Com grande destreza, própria de quem estava acostumada ao calor das panelas, tomava em suas mãos a bala ainda morna, esticando-a e juntando novamente as pontas, muitas vezes, até que a cor se transformava, tendendo para o branco cintilante como a pérola. Era um momento crucial! A bala, então, deveria ser esticada bem depressa, dando voltas sobre o tampo verde, como uma cobra enorme enredada na mata!

Nós roubávamos pedacinhos, adoçando a boca, enquanto a tarefa era finalizada com muita concentração, rapidamente, antes que a bala secasse e fosse impossível o seu corte. Suas mãos calejadas pelo trabalho que amava, torciam e puxavam a massa para que as balas ficassem finas e resultassem pequenas no final.

A tesoura, previamente preparada, agora nas mãos da vovó, executava a última tarefa, cortando sem perda de tempo a bala alongada, fazendo pular as balinhas e transformando a mesa em uma festa!

As balas, já frias, completavam a mágica da transformação cromática, finalmente brancas como algodão, brancas como são balas de coco, como a luz que se foi, mas que nunca se apagou.

Há coisas que vivemos, pessoas que amamos, momentos que foram anos e anos a se esperar. Há tempo que se conta e tempo a se demorar, mas todo esse mundo na alma, o riso na face, o doce na boca, o simples pensar, transpiram vida onde já não há; e mesmo que o tempo passe e faça tudo se acabar, o bom da vida fica comigo, e fica para me acalentar.

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Acomodados no sofá

Nas tardes de verão em São Paulo, todas as faces cansadas se encontram como vissem a si próprias refletidas nas faces dos outros. Todos se assemelham em suas angústias causadas, entre outras coisas, pela dificuldade imensa que encontram ao se deslocarem de casa ao trabalho e vice-versa. O sol escaldante na cidade da garoa torna-se um paradoxo, mediante a fama internacional da megalópole que pode abrigar várias estações em um só dia.

Todos, com bem poucas exceções, saem de casa com mochilas enormes, contendo o material necessário para o trabalho, um lanche reforçado e agasalhos leves, além de guarda-chuvas e outros badulaques aparentemente primordiais para o dia fora de casa. Tudo pode acontecer, em matéria de clima.

Há os que não se importam e saem de mãos vazias, prestando atenção ao entorno e despreocupados, vivendo o momento e sós.

Alguns viajam horas até o trabalho, trocando de ônibus várias vezes, ou revezando o meio de transporte, dos próprios pés aos trens e aos ônibus circulares. Mas há aqueles que do trabalho são vizinhos, praticamente, se considerarmos as distâncias vencidas pela maioria. Uma condução apenas e chegam ao destino.

Em minha rua há alguém que escolheu seu endereço, montando a casa em frente à minha, mais perto do trabalho do que qualquer conhecido. Desconheço seu nome e sua voz, mas observo essa figura tão estranha, como quem quer entender algo inexplicável. Ele é baixo e acima do peso, de cabelos escuros, crespos, volumosos e longos, divididos ao meio, como um guru de Woodstock, ou um ogro de desenho. Como se usasse uma máscara permanente, fecha o cenho e dirige o olhar para a frente, sempre, como se ali houvesse um vazio, mantendo o olhar firme, mas certamente perdido, ignorando o mundo habitado por gente. A boca cerrada, como uma estátua de pedra guardando um segredo antigo, não diz palavra. Olha, apenas. Usa chinelos, veste bermudas surradas e busca trabalho no lixo separado por espécie: plástico, vidro ou papel. Em minha rua isso existe. Anda de bicicleta e é intrigante quando pedala, lembrando um urso de circo sobre o selim estreito, deixando a grande pança à mostra, destituída de camiseta. Toma sol, coisa para poucos por aqui, apesar do calor estafante.

Sua mudança veio em um carrinho, tendo tudo de que precisa.  Mora neste bairro, revezando o sítio conforme as condições do momento. Escolhe o local em que obras estão em andamento, casas destinadas ao aluguel, mas ainda desocupadas, que, no mínimo, ofereçam um beiral ou árvore grande, para sustentar sua tenda feita com metros de plástico reforçado, cobrindo o colchão surrado que veio com a tralha toda. Água corrente também deve ter, uma torneira ou apenas um ponto do qual possa fazer uso, banhando-se com um balde, esfregando os cabelos com shampoo ali mesmo na rua, e também um ponto elétrico, para fazer um gato, afinal, sem luz para a leitura e para televisão, a vida ficaria insuportável. Pela manhã, acorda e faz a faxina, dobrando o seu telhado e arrumando tudo sem deixar nada à mostra. Toma sua condução e segue por algum caminho imaginário enquanto pedala com vigor.

À noite podemos ver sua imagem difusa através do plástico translúcido, recostado à mureta, como fosse a cabeceira da cama, assistindo TV ou lendo algo de teor desconhecido, sob uma luz opaca, mas visível. Ninguém o rouba, e ele também não teme. Não há uma mesa para os livros, mas ele os tem e lê. Cozinha também não há, mas come e dorme, sei lá como, nessas condições.

Quando algo o importuna, quer seja o proprietário por direito, ou um pretendente ao aluguel, ele enrola o colchão, embala os pertences e segue seu rumo, em duas viagens, uma a pé, levando o carrinho, e outra, em seguida, sobre a bicicleta, pedalando. Resumira seu mundo assim.

Volta e meia vejo essa pessoa por aí, vizinho de alguém em nosso bairro, igualmente intrigando outras pessoas que o olham com cara de interrogação, para a qual ele não tem a resposta, nem muito menos nós, que colocamos de volta a mente nos trilhos e as mãos em nossas tarefas cotidianas, tirando pó dos móveis, lavando a louça, pagando contas, escrevendo contos e, finalmente, ajeitando as almofadas no canto do sofá para mais um Jornal Nacional sangrento, premeditado e religiosamente constante.

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Enchente

Nuvens adensadas prenunciam a tarde de aguaceiro. “Do alto de minha janela”, vejo a escuridão baixando e oprimindo a todos nós que não nos acostumamos com o desconforto causado pela chuva na cidade que engole gente. Subitamente, a correria se inicia e o buzinaço toma conta das ruas. Sirenes da polícia e ambulâncias desesperadas avolumam-se, ensurdecendo quem ainda ouve. As motos, cada vez mais numerosas, descem a avenida em bandos, fazendo estardalhaço. Todos têm pressa de chegar!
A chuva despenca sem dó nem piedade, atingindo os passantes e acuando os desprevenidos, que se apertam sob a cobertura do ponto de ônibus, muito pequeno para tanta gente. O nervosismo geral é sentido mesmo por esta que observa à distância, sem nada poder fazer a não ser torcer para que a chuvarada seja breve.
Mas qual! O céu ruge e lança granizo, raios e muita água. A avenida vira um rio caudaloso, apavorando os motoristas já impossibilitados de movimentar seus carros. A água sobe e mil maneiras são pensadas para escapar, mas o trânsito, há muito complicado, encarcera os carros e seus ocupantes, invariavelmente reféns das enchentes. Alguns conseguem converter à direita, mas são surpreendidos por outra enxurrada alta, afogando vários carros que jazem em muda fila, quase boiando. O desalento dos ocupantes é de entristecer qualquer um. Que prejuízo!
Os motoqueiros, acostumados a correr perigo diariamente, aproveitam o momento para surfar, ruidosamente, em bandos, em direção à Avenida Faria Lima. Estes ainda conseguem se divertir, gritando e acelerando mais do que o necessário, completando o caos que se instala.
O cruzamento de duas avenidas, visível de minha janela, perde suas características normais e se transforma em um encontro de águas imundas, perigoso e traiçoeiro, cujas águas arrastariam alguém que tivesse a infelicidade de resvalar e cair, tamanha a força da correnteza. É de arrepiar!
A chuva forte mantém-se por um bom tempo, mas, a certa altura, as nuvens retiram-se aos poucos e a água abaixa, deixando para trás muito lixo carregado pela enxurrada, veículos fora de ação e pedestres encharcados, mas com muita vontade de chegar em casa.
Assisto à retirada dos carros avariados, ao trabalho dos guardas de trânsito, frente aos semáforos desligados, e ao desespero de todos para saírem dali. Não há feridos, apenas transtornados.
Esse quadro se repete sempre que São Pedro exagera na dose. Provavelmente, os culpados somos nós mesmos, seres urbanos e descomprometidos com o progresso ordenado das cidades. Enclausuramos rios, mudamos seus cursos, cobrimos a terra, tampamos as saídas, desafiamos a natureza e pagamos caro, muito caro por isso!
Hoje, felizmente, a notícia se atém a danos materiais de pequena monta, mas amanhã, quem dirá? Teremos a mesma sorte de permanecermos em casa em horas de chover? E as pessoas que moram distantes? E as crianças em horário de voltar para casa?
São tantas e tão complexas as situações, que por um momento imaginamos não haver soluções, contrariando uma tendência natural do ser humano, de sempre procurar uma saída!
A brisa fresca começa a soprar levemente e abro a vidraça, agradecendo pela chuva, pela brevidade dela e pela vida abundante que se avista daqui, apesar da tempestade a causar confusão e medo em todos nós, nesta tarde, em Sampa.

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Enxurrada

Era então uma mendiga e impressionava muito! Algo em seu porte desafiava o raciocínio, levando a imaginação a delirar procurando respostas.

De cabelos muito claros, louros, olhos azuis, magra, mas sem aparentar desnutrição, apesar da mendicância. Usava saia azul e blusa vermelha, ambas muito desbotadas, que expunham incrível sensação de limpeza. O nariz bem desenhado tinha certo ar de altivez, como se algo neste mundo lhe pertencesse por direito. Talvez apenas a vida, e nem mesmo disso ela tomara posse, mais preocupada em demarcar seu território em uma esquina movimentada.

Parecia esperar que algo acontecesse, demonstrando preocupação enquanto olhava a sarjeta. O que seria? Era de fato intrigante e parei, a prestar atenção nesta figura que, aos olhos incautos, nada revelava.

De repente, uma fina enxurrada começou a escorrer aos seus pés, vinda de algum quintal ou piscina, ou mesmo de algum prédio próximo que passava pela faxina diária. Ela então se apressou a tirar roupas da sacola que jazia encostada ao poste, e sem a menor cerimônia agachou e começou a lavá-las, aproveitando a oportunidade que as circunstâncias lhe deram.

Imaginem, em uma esquina movimentada da cidade de São Paulo, como se fosse dela!

Por algum motivo a água deixou de escorrer, mas já a roupa estava ensaboada. Então ela se pôs a ler uma folha de jornal que trazia dobrada entre seus pertences. O papel já estava amarelado e as bordas carcomidas pelo tempo. Colocou-se como estátua a vigiar sua roupa, dedicando-se à leitura, interessadíssima na notícia já tantas vezes lida. Não se importava com a edição muito atrasada, nem com os textos escritos nela. O mundo e a vida, para ela, têm um sabor atemporal e incerto, mas busca certezas em coisas tão básicas que até arrepia. Terá encontrado?

Magicamente a enxurrada começa a escorrer do outro lado da rua. Toma então os trapos com cuidado e atravessa, procurando um local onde a água empoçasse um pouco para facilitar o trabalho.

Fiquei realmente tocada com esta figura que faz questão de estar limpa e, em condições subumanas, consegue ser criativa, mesmo que de forma pouco higiênica. Que paradoxo!

O que terá acontecido com esta que se acotovela entre tantos e tantos desvalidos pela sorte? De onde terá vindo e por quê? Quem serão seus pais e filhos? Teria ela amado e sido amada? Seria a sobra de algo que morreu? Se tivesse tido uma chance, antes de perder as referências, tudo seria diferente!

Cessa a enxurrada e o trabalho chegou ao fim. Improvisar um varal é fácil para ela, que não reconhece mais a propriedade e nem se dá conta de que invade os limites de alguém. Adentra o jardim do pequeno hotel da esquina e expõe a roupa ao sol, contente, mostrando ao mundo que a vida continua de qualquer forma, com ou sem abrigo, apesar dos perigos, aquém do abandono, além do suportável, num canto imprevisível deste mundão sem fim.

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Cotidiano na cidade

Na cidade em que tudo é possível, há figuras quase improváveis junto a outras tão comuns!

Minha proposta é trazer para o blog minha percepção a respeito dessas pessoas diferentes da maioria, em lugares comuns, ou de outras aparentemente comuns, em lugares que se destacam por alguma característica própria, sua, imanente.  Pretendo também postar alguns relatos em prosa poética, ou mesmo poemas escancarados, sempre mirando acontecimentos que envolvam todos nós, seres humanos. Acredito que meu olhar seja o do observador benevolente, que pouco acrescenta de seu à cena sentida, muito mais do que apenas vista, embora seja quase impossível separar meu mundo particular daquele que me cerca, tornando-me evidente, em muitos casos, em sinais deixados nas entrelinhas do texto .

Com o tempo, as coisas e intenções podem se modificar, e então o rumo será ditado pelo imprevisível, sempre pronto a colaborar para que se quebre a monotonia e a horizontalidade da vida regrada e rotineira.

Que bons ventos me levem, portanto, a navegar!

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